segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Mulheres e Pintura de Marlene Dumas

Eu pinto porque sou uma mulher.
(É uma necessidade lógica.)
Se a pintura é feminina e a insanidade é uma doença feminina, então todas as mulheres pintoras são loucas e todos os pintores homens são mulheres.

Eu pinto porque sou uma mulher loira artificial.
(Morenas não têm desculpas.)
Se toda boa pintura é sobre cor então toda pintura ruim é sobre ter a cor errada. Mas coisas ruins podem ser boas desculpas. Como disse Sharon Stone, “Ser loira é uma grande desculpa. Quando você está tendo um dia ruim você pode dizer, Não posso ajudar, estou me sentindo muito loira hoje”.

Eu pinto porque sou uma menina do campo.
(Espertas, talentosas meninas da cidade grande não pintam.)
Eu cresci numa fazenda viticultora na África do Sul. Quando eu era criança desenhava meninas de biquínis atrás dos maços de cigarros dos convidados. Agora sou mãe e vivo em outro lugar que me lembra muito a fazenda – Amsterdã. (É um bom lugar para pintores.) Agora me dei conta, ainda estou ocupada com aqueles tipos de imagens e imaginações.

Eu pinto porque sou uma mulher religiosa.
(Eu acredito na eternidade.)
A pintura não congela o tempo. Ela faz circular e recicla o tempo como uma roda que gira. Aqueles que eram os primeiros podem bem ser os últimos. A pintura é uma arte lenta. Não viaja na velocidade da luz. Por isso pintores antigos brilham intensamente.
Tudo bem ser o segundo sexo.
Tudo bem ser a segunda melhor.
A pintura não é uma atividade progressiva.

Eu pinto porque sou uma mulher antiquada.
(Eu acredito em bruxaria.)
Não tenho complexos freudianos. Um pincel não me remete a um símbolo fálico. Vagamente, o aspecto doméstico de um estúdio de pintura (estando “trancada” em uma sala) me lembra um pouco da dona de casa com sua vassoura. Se você for uma bruxa ainda saberá como usá-la. Caso contrário, é óbvio que irá preferir o aspirador de pó.

Eu pinto porque sou uma mulher suja.
(Pintura é um negócio bagunçado.)
Nunca poderá haver um meio conceitual puro. Quanto mais “conceitual” ou limpa a arte, mais a cabeça pode estar separada do corpo, e mais o trabalho pode ser feito por outros.
Pintura é o único trabalho manual que faço.

Eu pinto porque gosto de ser comprada e vendida.
Pintura é sobre o traço do toque humano. É sobre a pele de uma superfície. Uma pintura não é um cartão postal. O conteúdo de uma pintura não pode ser separado do sentimento de sua superfície. Portanto, apesar de tudo, Cézanne é mais que vegetação e Picasso é mais que um ânus e Matisse não é um cafetão.

Marlene Dumas, 1993.



“Mulheres e a Pintura” foi escrito como uma despretensiosa e divertida resposta para a questão que nunca é feita para os homens artistas – Como é ser uma mulher que pinta?!
Não teve a intenção de colocar os homens pra baixo, foi feita para colocar a questão de cabeça para baixo.

Marlene Dumas, maio de 2014.


(tradução de Augusto Meneghin)








































Het Kwaad is Banaal/Evil is Banal, 1984
óleo sobre tela, 125x105cm

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A terra

para Safiri

O flanco aberto, em seu momento de claridade, mostra aos olhos a terra nua. À nudez da terra respondem as habitações, as árvores e os animais. O círculo de luz solar determina um novo espaço: a cor da terra se diferencia assim em matizes incontáveis. Por isso, a nudez da terra tem a vestimenta de uma paleta impossível. Sua impossibilidade é, no entanto, o possível que pisamos, tocamos e vemos. Talvez aqui seja o momento apropriado para dizer: “A terra nos fará bem.”, e nela gostaríamos de viver colhendo os frutos das horas e vendo-nos unidos sem distinção.
Sobre a terra estamos e fazemos morada. Mas o sentido de morar, quando a terra é con-junta, não está na qualidade da habitação. Não é a madeira rústica, não é a pedra, não é o cimento ou o tijolo que definem o estabelecer-se. A propriedade não significa para a terra mais do que intromissão e, na terra, as mãos vazias valem mais que um grande edifício.
Na terra, o existir é de-morar-se(r).
São as sombras e as variações, o cantar desconhecido que de longe nos atinge, o cheiro úmido da apresentação das folhas e o clamor do antigo que infundem em nós a sensação de um pertencimento fugaz. Sabemos que o estar na terra é estar não apenas no solo, mas na solidão do um. A terra é una com o que dela nasce e ramificação é sua essência.
Não apenas nutriz, não apenas veículo ou meio: a terra floresce e fertiliza. Seu desdobramento é o mais sólido e atinge a espessura do céu. Sem a terra a ave é estrangeira e o silêncio se perde no inefável.
É na terra que o reflexo do mundo se torna opaco. Ela filtra e absorve todo o excesso de luz e oferta sua claridade de maneira renovada. Se não estamos plenamente cegos é porque a terra ainda nos acolhe em sua escuridão pacífica. A matiz da terra abrange, inclusive, a noite intensa.
Porque não podemos nos subtrair da terra é que ela tornou-se esquecida. O mais próximo de nós é sempre o que primeiro se torna impessoal. O esquecimento da terra é como uma lâmina que separa nosso caminhar de nossa trajetória. O que há em uma paisagem que não conseguimos recordar, que foi destituída da possibilidade de ser história? Até mesmo a ruína possui beleza quando a terra lhe recobre com o devir. Sob a terra os antepassados fazem coro. Sob ela o novo, vindo do mais longínquo e ancestral, atualiza o conhecido.
Quando a voz da terra é re-encontrada, o fluir se dignifica.
Com o esquecimento, fechamos a clareira.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Maneiras de contar e escavações


escavei a terra escura procurando paquidermes de ontem, visões de outras atlântidas e encontrei apenas um muro. seis mil anos têm quantas nuvens? como um sintoma: azul é o globo do espaço e cinza as ruínas de um bunker. seis mil negros, seis mil carneiros, seis mil hare krishnas e duas cotias letradas. o sapato no lugar do sapato, isto é, à sombra dos tijolos, à sombra de um fotógrafo e ainda em tempo real como se câmeras viessem antes e viéssemos, em procissão, logo depois. gratidão gratidão carne de animal pocilga retorno namastê duas dúzias de peixes, seis mil pneus e uma aula de latim. escavei escuramente um paquiderme pai e nutri-me de suas visões. eis o que vi, sentado: um muro e seis mil tijolos. ao redor do Oriente Médio, ao redor da cripta de um mendigo e no cartão postal de uma pirâmide vi o céu, juro resplandecente e repleto de impunidades como se dissesse: sou um muro de ontem. e levaram, por fim, atlântida a uma enciclopédia. exceto a nuvem e seus carneiros, tão livre é a imagem de agrotóxicos e um fotógrafo disse certa vez que precisava encontrar os ossos em um bunker. uma nuvem desceu do espaço cinza e houve então cegueira.
por seis mil anos escreveram às escuras 
como se a mulher não existisse 
e toda a terra fosse um muro. 
ontem descobri que não 
e mesmo assim não fui perdoado 

a vingança do céu tem seis mil anos 
e os ossos têm o sexo de um paquiderme, 
tão pequenos quanto um peixe em ruínas. 
contei ao sapato sobre minha viagem 
e a escuridão do globo, 
sobre seis mil corpos 
lançados em hectares azuis 
tragados pela terra em dia negro. 
havia entre eles um olho de mármore 
reluzente como agrotóxico 
na mão de um hare krishna. 
é isto, pensei, 
os seis volumes da história humana 
e descansei no sétimo dia, 
fugindo das câmeras.





Lançamento de meu segundo livro Pluma e Imensidão


Carta revolucionária #1

eu acabei de perceber que as apostas são eu mesma
eu não tenho outro
dinheiro de resgate, nada para quebrar ou trocar exceto minha vida
meu espírito medido, em pedaços, espalhou-se sobre
a roleta, eu recupero o que posso
nada mais para enfiar embaixo do nariz do maître de jeu
nada para empurrar da janela, nenhuma bandeira branca
esta carne é tudo que tenho a oferecer, para jogar com
esta cabeça imediata, à tona, com meu movimento
à medida que deslizamos sobre esse tabuleiro de go, pisando sempre
(esperamos) entre as linhas

(Diane di Prima)