domingo, 11 de fevereiro de 2018

Dois poemas


Se somos dois,
temos quatro mãos para arar a terra.
Quatro mãos que apontam nuvens
e amassam o centeio.

Elas se sujam.
Uma limpa a outra
na opulência de um cristal líquido.

À noite,
elas se tocam
e bebemos o seu trabalho
em luz desvanecida.



*



Como é terrível a voz
por ser unicamente
a diferença mais brutal
que cada um carrega.
















A voz, pintura de Edvard Munch.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Cortinas

Se você abrir os olhos
encontrará a incapacidade do mundo.
Ele está forjado
sob um alpendre de misérias
enquanto a astronomia
dita as regras de um universo contemplável.
Não há vitórias na nebulosa.
O sol não pode ser encarado.
Algum planeta se move e sua trajetória
é uma mandala em três milhões de anos.
O que isso muda?
Para alguns, muito.
Para a maioria, nada.
As ligações, as intrigas, o fim da esperança
seguem como cometas morais
no campo de feno e pedra.
Se você abrir os olhos
entenderá a liberdade deste corvo,
desta fragrância que a morte exala.
Com os olhos fechados,
somente a dádiva dos sonhos
detém o olhar do espírito.



Bardo Thodol

Há universos que não posso entrar
com essas mãos de neve.
Estão presos pela chama,
miraculosos,
sedados por um gás azul.
Exatamente como seus antigos olhos,
partindo secretamente para a noite,
a pálpebra de tudo
é uma falésia intermitente.
As crianças correm ao redor,
colecionam búzios,
têm espinhos nos pés.
Um cacto generoso
cresce nas bordas do sonho
e alguns se admiram.
Dizem que tocarão a morte sem medo,
mas andam em caravanas,
não sobem ao cimo dos tibetanos.
Um halo aparece trazendo as deidades
:
a trompa os anuncia,
extensa como a vacuidade.
A música cresce nos muros,
levita os címbalos e tambores,
afoga o único portal com escuridão.

Meu coração é visto
como um punhado de cinzas.
Coloco o que restou dele 

em um óbolo marrom
e o levo como um amuleto.






segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os novos pecados

x

Sua única missão: abrir uma gaveta sozinha no universo.

Reconhecer em ti as lágrimas de duas estrelas partidas para sempre.

Nas ruas, pela manhã, dizer: "O sopro de um deus se erguendo como fumo."

Em cada esquina, em cada país, muitas solidões se chocam nas muralhas.

No centro de seu livro preferido há uma manhã verdadeira.

Com suas mãos fazer um pano do horizonte. Com seus pés, um crime de abandono.

No altar de sua família lembre-se de ofertar uma saída definitiva.

Doe seus olhos com prazer.

Quando repartir o nada, agradeça aos impérios desaparecidos.

Que seu coração tenha a saudade das coisas extintas.

Para a sua melancolia acenda uma fogueira com o diâmetro da Terra.

Nunca calce uma verdade alheia.

Nas vagas do mar há um espírito capaz de te recompor, mas ele é seletivo e senhor de grandes fúrias.

Se você não tem seios, coloque-os.

O buraco mais escuro, o abismo mais ultrajante é ainda uma criança para a grinalda de sua alma.

Quando falar de amor esqueça para sempre.

Somente o inferno possui azulejos resistentes e portas sem fechadura.

A noite está em equilíbrio quando duas pessoas se sentam à beira de um lago.

As mãos da morte empunham o trabalho afiado.

Quando uma árvore se abre, o infinito se regozija com o toque frio de pequenas pedras.

Para que serve a palha senão para teu funeral?

Os vizinhos se alastram sem o veneno de sua fala.

Quem desejar a fome estará saciado e invisível.

Ouvi teus passos antes de vê-la - sabia que seríamos parte de uma viagem desconhecida. Esta é a essência do reconhecimento.

No vale dos adormecidos há centenas de relógios feitos de sombra.

Seu corpo tem a função de uma janela.

Não há desespero na primeira música. Ela soa em nós através da eternidade.

Quando seus lábios forem coibidos pelo silêncio é o prenúncio de que serás um planeta.

Os riscos da honestidade são feitos com ossos dos amantes.

A pérola - para quê ela serve?

Nas fissuras do espelho caem as nossas ignorâncias.




























Obra de Louise Bourgeois.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O réprobo

O réprobo está cansado.
O réprobo está ausente.
Ele caminhou pelo mundo,
e o que viu?
Suas mãos esfareladas,
a brisa sempre insignificante.
Se ele pudesse abrir
a parte mais remota,
a parte bonita do deserto...
Se ele ao menos pudesse...
Então talvez o amargo da monotonia
seria aniquilado pela possibilidade
e nos laboratórios, na frieza dos balcões,
seu corpo não seria dissecado
e seria eucalipto o que se desprenderia de sua pele
e não o formol de aura incolor.

O réprobo dá beijos?
Ele diz que sim,
mas nós nunca vimos.
A ficção ao redor do beijo
o expulsou dos viadutos
e, nas vielas de lâmpadas quebradas,
junto a uma platéia de roedores,
o réprobo vive o seu romance.



























Obra de Antoni Tàpies.