domingo, 4 de março de 2018

Três poemas


A voz

O desertor deve cruzar sozinho
as formações do anil.
Sem que suas mãos cravem um machado
nas dunas fechadas do nascimento,
não haverá mundo e verdade,
mas apenas um fumo se elevando
nas cordilheiras do amanhecer.


*


Sobem de suas pupilas
os nomes mais antigos
:
mãe,
pai,
o filho não nascido.

Todos habitam como sementes
na caldeira de argila vermelha.

O fogo também é capaz
de uma espera interminável.


*


Luz,
tua mão crepita
na atmosfera do vazio.
Teu nome oco
como um cilindro escuro
ecoa das fissuras
o encanto humano.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os novos pecados

x

Sua única missão: abrir uma gaveta sozinha no universo.

Reconhecer em ti as lágrimas de duas estrelas partidas para sempre.

Nas ruas, pela manhã, dizer: "O sopro de um deus se erguendo como fumo."

Em cada esquina, em cada país, muitas solidões se chocam nas muralhas.

No centro de seu livro preferido há uma manhã verdadeira.

Com suas mãos fazer um pano do horizonte. Com seus pés, um crime de abandono.

No altar de sua família lembre-se de ofertar uma saída definitiva.

Doe seus olhos com prazer.

Quando repartir o nada, agradeça aos impérios desaparecidos.

Que seu coração tenha a saudade das coisas extintas.

Para a sua melancolia acenda uma fogueira com o diâmetro da Terra.

Nunca calce uma verdade alheia.

Nas vagas do mar há um espírito capaz de te recompor, mas ele é seletivo e senhor de grandes fúrias.

Se você não tem seios, coloque-os.

O buraco mais escuro, o abismo mais ultrajante é ainda uma criança para a grinalda de sua alma.

Quando falar de amor esqueça para sempre.

Somente o inferno possui azulejos resistentes e portas sem fechadura.

A noite está em equilíbrio quando duas pessoas se sentam à beira de um lago.

As mãos da morte empunham o trabalho afiado.

Quando uma árvore se abre, o infinito se regozija com o toque frio de pequenas pedras.

Para que serve a palha senão para teu funeral?

Os vizinhos se alastram sem o veneno de sua fala.

Quem desejar a fome estará saciado e invisível.

Ouvi teus passos antes de vê-la - sabia que seríamos parte de uma viagem desconhecida. Esta é a essência do reconhecimento.

No vale dos adormecidos há centenas de relógios feitos de sombra.

Seu corpo tem a função de uma janela.

Não há desespero na primeira música. Ela soa em nós através da eternidade.

Quando seus lábios forem coibidos pelo silêncio é o prenúncio de que serás um planeta.

Os riscos da honestidade são feitos com ossos dos amantes.

A pérola - para quê ela serve?

Nas fissuras do espelho caem as nossas ignorâncias.




























Obra de Louise Bourgeois.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Histórias de amor

após ler Günther Grass




Era uma vez era uma vez
alguém que na plataforma esperava
a solução final
para sua questão amorosa.
Então escovava os dentes
mais de duas vezes
e se embelezava em um espelho polido
para encontrar o que procurava.
Antes da grinalda
ela via a grinalda,
mas não sabia quem era o homem.

Era uma vez o homem
que escovava o espelho polido
para deixá-lo riscado
e sem solução para a mulher da plataforma.
Assim, quando ela procurasse,
teria de esperar ainda mais
o seu Era uma vez
e não poderia colocar
a grinalda verdadeira.
Ela via a plataforma,
mas estava sem os dentes.

Era uma vez os dentes,
era uma vez a plataforma
e só havia a grinalda.
Absoluta no vazio dos trilhos
ela poderia ser destruída pelo vento.
O homem que escovava as soluções
viu beleza naquilo
e achou o que procurava
no desfecho de uma questão amorosa.

Era uma vez a escova de dentes
que polia a grinalda
para extrair a verdade.
O homem riscado embelezava a questão
jogando o desfecho nos trilhos.
Ele esperava um espelho amoroso
mas a solução final estava no absoluto.
Ventava duas vezes
e a mulher se esvaziava na beleza.

Era uma vez a plataforma
onde a solução era o desfecho
e quem buscasse a questão amorosa
seria destruído pelos trilhos.
O vento absoluto era o homem
e a mulher não era verdadeira.
Cabia a ela escovar a grinalda duas vezes
e riscar o que procurava.
A beleza estava nos dentes
e também no espelho polido.
No vazio de alguém
morava um Era uma vez
até que foi destruído
por quem esperava.



























Fotografia de Cartier Bresson.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Moldura lisa do amor

amor
que frágil
 questão
 para nossa
 incapacidade

 que moinho
 teremos
 de pôr abaixo
 uma centena
 de vezes?

 com quantas
 perdas
 e
 ilusões
 se faz
 o eu mutilado?

 sob nuvens
 sob
         o
 mesmo céu
amor
carruagem de palha
 contra
 o horizonte

 quem
 irá
 retirar
 este excesso
 de neve?

 quem será
 o
    assassino
 além
 de si mesmo?

amor
 fardo
 de
 plumas
 montanha
 de
 asas
 que devemos
 todos
 carregar

 aqui
 nunca
 em lugar algum
 ou
 fechado
 para o que vier

 saudando
 a
 delicada
 dor
 criança
 da amplidão
 povoada

 sozinho
 uma
 multidão
 de braços
 porém
 sozinho

 o amor
 que
 não é negado
 e retorna
 o amor
 que nunca virá
 o amor
 sempre
      partido
 as mil
 formas
do amor
 e
 nenhuma
 perfeita
 nenhuma
 acabada

 tudo
 sendo
 e
 jamais
 filtrado

 o amor
 por
        que
 seria
 afinal
 o amor
doado?


[publicado no livro Pluma e Imensidão]




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Réquiem para um órgão rejeitado

Bebia primeiramente
a vermelha fonte
onde tudo estava : as lágrimas,
o rio, o sêmen e o glúten,
o primeiro olhar e a beleza,
a água, o caminho e o suor,
em resumo,
toda a mãe ele bebia.
Dizia ainda sem olhos,
ainda sem poder dizer : "Mãe,
vim bebê-la."
E como a noite estremecesse,
bebia vigorosamente.

Um primeiro som.
Bebia e ouvia
pelo cálice esticado
onde os lábios sujos gozavam.
Era libertadora a face quando não havia um nome.
Era ainda o suco de uma semente.

Amendoeira? Buxo? Uma orquídea?
A semente vermelha crescia
ao acariciar os únicos lábios :
"Mãe, vim bebê-la
e escuto música."
Como ainda um pássaro oco
ou uma madeira afogada,
a orquestra primeira
tinha a alma de um tambor.

Não agonizava.
Não estava lançado.
Mas do lado de fora já preparavam sua continuação
:
o leito e seus apetrechos
estendiam a origem para o mundo
e, enquanto isso,
a raiz esponjosa nutria sua copa.

O olho agora via :
era uma árvore.
Era escura. E ela pulsava.
Perguntava ainda sem poder dizer :
"Eu como seus frutos
ou os frutos são meus?"
A árvore crescia junto com a fome.
Era a fome que contava os dias.