sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Histórias de amor

após ler Günther Grass




Era uma vez era uma vez
alguém que na plataforma esperava
a solução final
para sua questão amorosa.
Então escovava os dentes
mais de duas vezes
e se embelezava em um espelho polido
para encontrar o que procurava.
Antes da grinalda
ela via a grinalda,
mas não sabia quem era o homem.

Era uma vez o homem
que escovava o espelho polido
para deixá-lo riscado
e sem solução para a mulher da plataforma.
Assim, quando ela procurasse,
teria de esperar ainda mais
o seu Era uma vez
e não poderia colocar
a grinalda verdadeira.
Ela via a plataforma,
mas estava sem os dentes.

Era uma vez os dentes,
era uma vez a plataforma
e só havia a grinalda.
Absoluta no vazio dos trilhos
ela poderia ser destruída pelo vento.
O homem que escovava as soluções
viu beleza naquilo
e achou o que procurava
no desfecho de uma questão amorosa.

Era uma vez a escova de dentes
que polia a grinalda
para extrair a verdade.
O homem riscado embelezava a questão
jogando o desfecho nos trilhos.
Ele esperava um espelho amoroso
mas a solução final estava no absoluto.
Ventava duas vezes
e a mulher se esvaziava na beleza.

Era uma vez a plataforma
onde a solução era o desfecho
e quem buscasse a questão amorosa
seria destruído pelos trilhos.
O vento absoluto era o homem
e a mulher não era verdadeira.
Cabia a ela escovar a grinalda duas vezes
e riscar o que procurava.
A beleza estava nos dentes
e também no espelho polido.
No vazio de alguém
morava um Era uma vez
até que foi destruído
por quem esperava.



























Fotografia de Cartier Bresson.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Moldura lisa do amor

amor
que frágil
 questão
 para nossa
 incapacidade

 que moinho
 teremos
 de pôr abaixo
 uma centena
 de vezes?

 com quantas
 perdas
 e
 ilusões
 se faz
 o eu mutilado?

 sob nuvens
 sob
         o
 mesmo céu
amor
carruagem de palha
 contra
 o horizonte

 quem
 irá
 retirar
 este excesso
 de neve?

 quem será
 o
    assassino
 além
 de si mesmo?

amor
 fardo
 de
 plumas
 montanha
 de
 asas
 que devemos
 todos
 carregar

 aqui
 nunca
 em lugar algum
 ou
 fechado
 para o que vier

 saudando
 a
 delicada
 dor
 criança
 da amplidão
 povoada

 sozinho
 uma
 multidão
 de braços
 porém
 sozinho

 o amor
 que
 não é negado
 e retorna
 o amor
 que nunca virá
 o amor
 sempre
      partido
 as mil
 formas
do amor
 e
 nenhuma
 perfeita
 nenhuma
 acabada

 tudo
 sendo
 e
 jamais
 filtrado

 o amor
 por
        que
 seria
 afinal
 o amor
doado?


[publicado no livro Pluma e Imensidão]




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Réquiem para um órgão rejeitado

Bebia primeiramente
a vermelha fonte
onde tudo estava : as lágrimas,
o rio, o sêmen e o glúten,
o primeiro olhar e a beleza,
a água, o caminho e o suor,
em resumo,
toda a mãe ele bebia.
Dizia ainda sem olhos,
ainda sem poder dizer : "Mãe,
vim bebê-la."
E como a noite estremecesse,
bebia vigorosamente.

Um primeiro som.
Bebia e ouvia
pelo cálice esticado
onde os lábios sujos gozavam.
Era libertadora a face quando não havia um nome.
Era ainda o suco de uma semente.

Amendoeira? Buxo? Uma orquídea?
A semente vermelha crescia
ao acariciar os únicos lábios :
"Mãe, vim bebê-la
e escuto música."
Como ainda um pássaro oco
ou uma madeira afogada,
a orquestra primeira
tinha a alma de um tambor.

Não agonizava.
Não estava lançado.
Mas do lado de fora já preparavam sua continuação
:
o leito e seus apetrechos
estendiam a origem para o mundo
e, enquanto isso,
a raiz esponjosa nutria sua copa.

O olho agora via :
era uma árvore.
Era escura. E ela pulsava.
Perguntava ainda sem poder dizer :
"Eu como seus frutos
ou os frutos são meus?"
A árvore crescia junto com a fome.
Era a fome que contava os dias.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Um evangelho úmido

Gostava que o mundo semeasse crimes,
que os sonhos fossem abertos com um machado.
No teatro, galgava o lugar desabado,
a fileira onde se podia fazer amor.
Queria entrar para sempre na fumaça
e desertar os traidores da sombra e da ira.
Sua mãe - não era sua mãe.
Seu pai - não era seu pai, etc.
Assim, para deixar sua casa intacta,
cobriu-a de memórias,
entregou-a ao coveiro mudo.
Era um passageiro, desses que se perdem.
Por isso, podia sempre dizer: "Eu retornei".

Apreciava mudar as árvores de lugar
e também as montanhas.
Atirava a esmo nos escritórios
e somente distribuía as próprias dívidas.
Era, para as vacas, um novo profeta,
liberto das profecias e sobretudo do futuro.
Seus olhos nunca miravam a alvenaria
ou a engenharia fictícia dos filósofos,
porque ele sabia que o mundo não estava
assentado nas costas de um pote de barro.
Por isso, podia sempre dizer: "Não sou um oleiro 

                                                                   [das coisas".

Comia as ramagens que se multiplicam,
sobretudo durante a noite.
Não raro seu prato continha vidros de estrela.
Preferia o esquecimento das  grandes eternidades
e não se entristecia com a origem de tudo.
Em sua mão, o espaço se inaugurava a partir de um vazio,
como um útero que viesse do céu.
Por isso, podia sempre dizer: "Não sirvo às altitudes".

sábado, 4 de novembro de 2017

De um diário

Faz ao menos uns quatro anos que sou visitado por uma espécie de morte sutil. É a morte que não apodrece, que não faz as lágrimas cairem e nem a música cessar. É uma morte branda e, ouso dizer, feliz. A morte que veste a máscara de um contentamento muito familiar e prazeroso.
Quando se aceita esse traje, a vida perde seu encanto, embora pareça profundamente encantada com suas viagens e aventuras forjadas. Nenhum texto quando me encontro nesse lugar parece ter a voz ou a autoridade da voz que caracteriza o espírito verdadeiro.
Continuo sentindo que perdi, que falhei ao não entender que o amor é doação sem nenhuma troca em espécie conhecida. Olho ao redor e vejo poder. Poder sobre tudo e todos: a disputa fálica que cada um promove para se sustentar em um mundo que somente nos oferece a ruína dos símbolos.
Mas eu amei. Eu senti, por alguns minutos, a verdade de um olhar. Senti que eu poderia dividir minhas memórias e encontrar novamente aquilo que rejeitei.
Devo dizer que minha rejeição é uma falha. E todas as falhas contém o alimento obscuro que a alma necessita. Então eu sento e observo todos os meus erros e, como uma criança triste, desejo que eles sejam transmutados na paisagem daqueles primeiros dias onde eu podia me entregar sem nenhum temor à descoberta de seu corpo.
Lembro de cada aspecto de sua pele e de  seu gozo. Lembro do que não gostava. Lembro dos vinhos e do chão. E quando eu me lembro, posso ser mais vivo do que quando me esforço para esquecer.
Tenho vivido em silêncio, é verdade. Também vivi em uma suspensão, evitando me revelar, me expor a esta fragilidade que lentamente consome o que há de mais vivo em mim.
Então decidi que minha alma não precisa se desfazer em frustrações, que ela não precisa se apagar para sempre porque não consegue obter respostas.
Ela pode esperar.