quinta-feira, 26 de setembro de 2013

carta de são paulo ao corinthians I

cap 13 versículo 1-13,  cap 14 versículos 1-40

olá com licença
preciso ler um poema
peço que os senhores permaneçam 
sentados e em silêncio
não precisam desligar os celulares
não sei aonde fica a saída de emergência
tenho o sol em leão
e acho deselegante essa falta de respeito.
durante a leitura do poema
é preciso que utilizem o que aprenderam na escola.
caso você tenha menos que 18 anos
é necessário que esteja acompanhado dos pais ou responsáveis
pois certas palavras já não são ensinadas na cartilha de alfabetização.
para os analfabetos, sugiro que escutem atentamente
os veículos do lado de fora.
não é permitido fumar em lugares fechados, 
embora o corpo seja um lugar
parcialmente fechado e com menos área de cobertura 
do que a estipulada pela lei.
durante a leitura do poema é permitido ir ao banheiro
ou simplesmente esquivar-se, desde que em silêncio.
pessoas com deficiência social têm assento preferencial
no meu colo ou em qualquer outra parte íntima.
caso o assento esteja ocupado, cederei alguns amigos.
o rodízio de pessoas é obrigatório do início do poema ao fim.
qualquer reclamação será ignorada e até mesmo ironizada.
em caso de insistência, haverá uma crise de riso.

[agora prestem atenção:]

Se eu falar as línguas dos paulistanos e dos anjos, e não tiver o sotaque, tenho-me tornado como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Se eu tiver o dom de fazer arte, e souber todos os mistérios e toda a ciência; se tiver toda a sé a ponto de remover montes, e não tiver um transporte, nada sou.
Se eu distribuir todos os meus bens em sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo para ser queimado, se todavia não tiver propaganda, isto nada me aproveita.
A propaganda é longânima, é benigna, a publicidade não é invejosa, não se jacta, não se ensoberbece,
não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal,
não se regozija com a injustiça, mas regozija-se com a verdade;
tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre.
A propaganda jamais se acaba; mas quer haja profecias, desaparecerão; quer línguas, cessarão; quer ciência, desaparecerá.
Pois em parte conhecemos e em parte inventamos;
mas quando vier o que é perfeito, o que é em parte será mais importante.
Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; desde que me tornei travesti, dei de mão as coisas de menino.
Pois agora vemos como por um espelho em enigma, mas então face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, assim como fui plenamente conhecido.
Mas agora permanecem estas três: a sé, a estação de metrô, a publicidade; porém a maior destas é a travesti.
Segui a publicidade; contudo aspirai aos dons materiais, porém sobre todos ao de economista.
O que fala em língua, não fala a homens, senão ao mercado; pois ninguém o entende, mas em espírito fala mistérios.
Porém aquele que economiza, fala a homens para economização, exortação e consolação.
Aquele que fala em língua, edifica-se a si mesmo; mas o que economiza, edifica a igreja.
Quero que todos vós faleis em línguas, mas antes que economizeis; maior é aquele que economiza do que aquele que fala em línguas, a não ser que as interprete, para que a igreja receba direitos de tradução.
Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco, falando em línguas, de que vos aproveitarei se não vos falar por meio de inflaçao, ou de ciência, ou de economia, ou de juros?
Até as coisas inanimadas quando emitem som, quer flauta quer cítara, se não fizerem diferença de preço, como se conhecerá o que se toca na flauta ou na cítara?
Porque se a trombeta der um som incerto, quem a comprará para a batalha?
Assim também vós, se pela língua não proferirdes discurso fácil de se entender, como se conhecerá o que se fala? pois estareis falando ao ar.
Há, como acontece, tantas espécies de gêneros sexuais no mundo, e nenhuma há sem significação.
Se, portanto, eu não souber a significação do gênero sexual, serei um estrangeiro para aquele que fala; e aquele que fala, será um estrangeiro para mim.
Assim também vós, desde que estais desejosos de dons sexuais, procurai abundar neles, para a edificação da igreja.
Por isso quem fala em língua, ore para que a interprete.
Pois se eu orar em língua, o meu espírito ora, mas o meu entendimento não dá fruto.
Que farei, então? orarei com o espírito, e orarei também com o comentarista; cantarei hinos de futebol com o espírito, e cantarei também com o jornalista.
De outra forma se bendisseres com o espírito, como dirá o amém às tuas ações milionárias aquele que ocupa o lugar de goleiro, visto que não sabe o que dizes?
tu, na verdade, dás bem as rendas familiares, mas o outro não liga a mínima.
Dou graças a Deus que falo em línguas mais que todos vós;
mas no estádio eu antes quero falar cinco palavras com o meu comentarista, para que instrua também a outros, do que dez mil palavras em língua.
Irmãos, não vos torneis meninos no juízo. Na malícia, contudo, sede travestis; mas no juízo tornai-vos travestis operados.
Na Lei está escrito: Por travestis de outras línguas e por lábios de prostitua falarei a este povo, e nem assim me ouvirá, diz o Senhor.
Assim línguas são para sexo oral, não aos que crêem, mas aos incrédulos; a economia, porém, não aos incrédulos, mas aos que crêem.
Se, portanto, a igreja inteira se reunir num mesmo lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem sem excitação ou ereção, não dirão que estais loucos?
Se, porém, todos economizarem, e entrar algum tarado ou excitado, por todos é convencido, por todos é julgado.
Os segredos do seu coração se tornam manifestos; e assim, caindo com o rosto em terra, adorará a Deus, declarando que realmente Deus está entre vós.
Que farei, pois, irmãos? Quando vos congregais, cada um tem um segredo sujo, tem ensino, tem traição, tem língua, tem interpretação; que tudo se faça para edificação.
Se alguém usar a língua, não usem senão dois ou, quando muito, três, e cada um por sua vez; haja um que receba;
mas se não houver linguarudo, esteja calado na igreja, e fale consigo e com Deus.
Falem os economistas, dois ou três, e os outros invistam;
se for dada alguma inflação a outrem que estiver sentado, cale-se o primeiro.
Pois todos, um após outro, podeis economizar, para que todos aprendam e todos sejam exortados.
Os espíritos dos economista estão sujeitos aos economistas,
porque Deus não é Deus de inflação, mas de investimento. Como em todas as igrejas dos santos,
as mulheres estejam caladas nas igrejas; pois não lhes é permitido falar, mas estejam em sujeição, como também diz a Lei.
Se, porém, querem aprender alguma coisa, perguntem-na em casa a seus maridos; porque é vergonhoso para uma mulher o falar na igreja.
Porventura saiu de vós a palavra de Deus, ou não veio ela senão para vós?
Se alguém se considera economista ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Santander;
mas se alguém desconhece, é ele desconhecido.
Assim, meus irmãos, aspirai a economizar, e não proibais o falar em línguas;
mas faça-se tudo com decência e senha.




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um poema de Paul Eluard




















Nos meus cadernos de escola
Nas carteiras e nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página lida
Em toda página em branco
Pedra, papel, sangue ou cinza
Escrevo teu nome
Em toda imagem doirada
E nas armas dos guerreiros
Ou nas coroas dos reis
Escrevo teu nome
Na floresta e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Nos ecos de minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas da noite
No pão branco da manhã
Nas estações em noivado
Escrevo teu nome
Em todo farrapo azul
No tanque de água mofado
No lago de lua viva
Escrevo teu nome
Nos campos e no horizonte
Nas asas dos passarinhos
E nos moinhos de sombra
Escrevo teu nome
Em todo sopro da aurora
No mar e em cada navio
Na montanha adormecida
Escrevo teu nome
Nas espumas e nas nuvens
Nos suores da tormenta
Na chuva densa e enfadonha
Escrevo teu nome
Nas formas resplandescentes
Nos sinos de várias cores
Em toda verdade física
Escrevo teu nome
Nos caminhos acordados
E nas estradas vistosas
Ou nas praças transbordantes
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
Na fruta cortada ao meio
Do meu espelho e meu quarto
No leito concha vazia
Escrevo teu nome
No meu cão guloso e terno
De orelhas que estão em guarda
Nas suas patas sem jeito
Escrevo teu nome
Na minha porta de entrada
Nos objetos familiares
Nas ondas de fogo lento
Escrevo teu nome
Em toda carne cedida
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
E nos lábios sempre atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Nos refúgios destruídos
Nos faróis desmoronados
Nas paredes de meu tédio
Escrevo teu nome
Nas ausências sem desejo
Na solidão toda nua
Nesta marcha para a morte
Escrevo teu nome
Na saúde que retoma
No Perigo que passou
Nas esperanças sem eco
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci para conhecer-te
E chamar-te
Liberdade.


domingo, 8 de setembro de 2013

Uma mulher morta aos quarenta

X
 1.
Seus seios/  cortados fora   As cicatrizes
turvas     como deveriam estar
anos depois

Todas as mulheres com quem cresci estão sentadas
seminuas em rochas    sob o sol
nos olhamos e
não estamos envergonhadas

e você também tirou sua blusa
mas não era o que queria:

mostrar seu torso marcado e excluído

Mal olho para você
como se meu olhar pudesse escaldá-la
embora seja eu que a amei

Eu quero tocar com meus dedos
onde seus seios estiveram
mas nunca fizemos esse tipo de coisa

Você não imaginava que todo mundo
pareceria tão perfeito
não mutilado

veste
sua blusa de novo:      declaração severa

Há coisas que não quero partilhar
com todo mundo
 
2.
Você me manda de volta para partilhar
minhas cicatrizes   em primeiro lugar
comigo mesma

o que escondi dela
o que neguei a ela
que perdas sofridas

como neste corpo ignorante
ela se escondeu

esperando pela sua liberação
até ser derramada a luz incontrolável

de cada ferida e sutura
e todas as aberturas sagradas

3.
Tempo de guerra.   Sentamos em mornas
resistentes, amolecidas tábuas cinzentas

vislumbres da escada onde me disse
que as sanguessugas nadam

Eu farejo flama
de querosene    o pinheiro

tábuas onde dormimos lado a lado
em camas estreitas

a pradaria noturna exalando
sua escuridão     convocando 

criança para mulher
criança para mulher
mulher

4.
Boa parte de nosso amor aos nove
tomou a forma de brincadeiras e muda

lealdade:    você enfrentou uma menina
que disse que me derrubaria

nós fazíamos a tarefa uma da outra
escrevíamos cartas     mantínhamos contato, sem nos tocar

mentimos sobre nossas vidas:     Eu vestindo
a face do casamento perfeito

você a face da mulher independente
rompemos aquele espaço em direção uma a outra

dedilhando teias
de amor e estranhamento   até o dia

em que o ginecologista tocou seu seio
e encontrou uma dureza palpável

5.
Você encenou heróicos, necessários
jogos com a morte

uma vez que em sua tribo neoprotestante o vazio
deveria não existir

exceto como um conceito da moda
que você não professava

queria que estivesse aqui esta noite     Eu quero
dizer para você

Não aceite
Não desista

Mas estaria me referindo à sua vida
corajosa irrepreensível, à sua liderança de mulheres, ou

à sua injusta, deselegante, imperdoável
morte de mulher?

6.
Você é cada mulher que eu amei
e repudiei

um acorde sangrento incandescente viciado
através dos anos, extensões do espaço

Como posso reconciliar esta paixão
com sua modéstia

sua herança calvinista
minha infância congelada em formas

como posso prosseguir nesta missão
sem você

que teria me dito
tudo que você sente é verdadeiro?

7.
De tempos em tempos em sonhos surge
reprovadora

certa vez em uma cadeira de rodas empurrada por seu pai
através de uma estrada letal

De todos os meus mortos
é você que me chega inacabada

deixou-me contas de âmbar
amarradas com a turquesa de um túmulo Egípcio

Eu as uso pensando
O quão fiel sou a você?

Hesito em escrever poesia
para você   que nunca leu muito

e fico trabalhando
com os segredos e o silêncio

sendo direta:   Nunca lhe disse como a amei
nunca falamos da sua morte no seu leito de morte

8.
Um anoitecer de outono em um trem
capturando faíscas de diamante do pôr-do-sol

em poças ao longo do Hudson
pensei:   Eu compreendo

vida e morte agora, as escolhas  

Não soube sua escolha

ou como naquele ponto não teve escolha
como o corpo conta a verdade em sua corrida de células

Boa parte de nosso amor tomou a forma
de muda lealdade

nunca falamos da sua morte no seu leito de morte

mas daqui em diante
quero mais luto enlouquecido, mais uivo, mais lamento

Permanecemos mudas e desleais
porque tínhamos medo

Eu teria tocado com meus dedos
onde seus seios estiveram
mas nunca fizemos esse tipo de coisa

1974-1977  Adrienne Rich
tradução de Augusto Meneghin e Sarah Valle