segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Um poema de Paul Eluard




















Nos meus cadernos de escola
Nas carteiras e nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome
Em toda página lida
Em toda página em branco
Pedra, papel, sangue ou cinza
Escrevo teu nome
Em toda imagem doirada
E nas armas dos guerreiros
Ou nas coroas dos reis
Escrevo teu nome
Na floresta e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Nos ecos de minha infância
Escrevo teu nome
Nas maravilhas da noite
No pão branco da manhã
Nas estações em noivado
Escrevo teu nome
Em todo farrapo azul
No tanque de água mofado
No lago de lua viva
Escrevo teu nome
Nos campos e no horizonte
Nas asas dos passarinhos
E nos moinhos de sombra
Escrevo teu nome
Em todo sopro da aurora
No mar e em cada navio
Na montanha adormecida
Escrevo teu nome
Nas espumas e nas nuvens
Nos suores da tormenta
Na chuva densa e enfadonha
Escrevo teu nome
Nas formas resplandescentes
Nos sinos de várias cores
Em toda verdade física
Escrevo teu nome
Nos caminhos acordados
E nas estradas vistosas
Ou nas praças transbordantes
Escrevo teu nome
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas
Escrevo teu nome
Na fruta cortada ao meio
Do meu espelho e meu quarto
No leito concha vazia
Escrevo teu nome
No meu cão guloso e terno
De orelhas que estão em guarda
Nas suas patas sem jeito
Escrevo teu nome
Na minha porta de entrada
Nos objetos familiares
Nas ondas de fogo lento
Escrevo teu nome
Em toda carne cedida
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas
E nos lábios sempre atentos
Bem acima do silêncio
Escrevo teu nome
Nos refúgios destruídos
Nos faróis desmoronados
Nas paredes de meu tédio
Escrevo teu nome
Nas ausências sem desejo
Na solidão toda nua
Nesta marcha para a morte
Escrevo teu nome
Na saúde que retoma
No Perigo que passou
Nas esperanças sem eco
Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci para conhecer-te
E chamar-te
Liberdade.


domingo, 8 de setembro de 2013

Uma mulher morta aos quarenta

X
 1.
Seus seios/  cortados fora   As cicatrizes
turvas     como deveriam estar
anos depois

Todas as mulheres com quem cresci estão sentadas
seminuas em rochas    sob o sol
nos olhamos e
não estamos envergonhadas

e você também tirou sua blusa
mas não era o que queria:

mostrar seu torso marcado e excluído

Mal olho para você
como se meu olhar pudesse escaldá-la
embora seja eu que a amei

Eu quero tocar com meus dedos
onde seus seios estiveram
mas nunca fizemos esse tipo de coisa

Você não imaginava que todo mundo
pareceria tão perfeito
não mutilado

veste
sua blusa de novo:      declaração severa

Há coisas que não quero partilhar
com todo mundo
 
2.
Você me manda de volta para partilhar
minhas cicatrizes   em primeiro lugar
comigo mesma

o que escondi dela
o que neguei a ela
que perdas sofridas

como neste corpo ignorante
ela se escondeu

esperando pela sua liberação
até ser derramada a luz incontrolável

de cada ferida e sutura
e todas as aberturas sagradas

3.
Tempo de guerra.   Sentamos em mornas
resistentes, amolecidas tábuas cinzentas

vislumbres da escada onde me disse
que as sanguessugas nadam

Eu farejo flama
de querosene    o pinheiro

tábuas onde dormimos lado a lado
em camas estreitas

a pradaria noturna exalando
sua escuridão     convocando 

criança para mulher
criança para mulher
mulher

4.
Boa parte de nosso amor aos nove
tomou a forma de brincadeiras e muda

lealdade:    você enfrentou uma menina
que disse que me derrubaria

nós fazíamos a tarefa uma da outra
escrevíamos cartas     mantínhamos contato, sem nos tocar

mentimos sobre nossas vidas:     Eu vestindo
a face do casamento perfeito

você a face da mulher independente
rompemos aquele espaço em direção uma a outra

dedilhando teias
de amor e estranhamento   até o dia

em que o ginecologista tocou seu seio
e encontrou uma dureza palpável

5.
Você encenou heróicos, necessários
jogos com a morte

uma vez que em sua tribo neoprotestante o vazio
deveria não existir

exceto como um conceito da moda
que você não professava

queria que estivesse aqui esta noite     Eu quero
dizer para você

Não aceite
Não desista

Mas estaria me referindo à sua vida
corajosa irrepreensível, à sua liderança de mulheres, ou

à sua injusta, deselegante, imperdoável
morte de mulher?

6.
Você é cada mulher que eu amei
e repudiei

um acorde sangrento incandescente viciado
através dos anos, extensões do espaço

Como posso reconciliar esta paixão
com sua modéstia

sua herança calvinista
minha infância congelada em formas

como posso prosseguir nesta missão
sem você

que teria me dito
tudo que você sente é verdadeiro?

7.
De tempos em tempos em sonhos surge
reprovadora

certa vez em uma cadeira de rodas empurrada por seu pai
através de uma estrada letal

De todos os meus mortos
é você que me chega inacabada

deixou-me contas de âmbar
amarradas com a turquesa de um túmulo Egípcio

Eu as uso pensando
O quão fiel sou a você?

Hesito em escrever poesia
para você   que nunca leu muito

e fico trabalhando
com os segredos e o silêncio

sendo direta:   Nunca lhe disse como a amei
nunca falamos da sua morte no seu leito de morte

8.
Um anoitecer de outono em um trem
capturando faíscas de diamante do pôr-do-sol

em poças ao longo do Hudson
pensei:   Eu compreendo

vida e morte agora, as escolhas  

Não soube sua escolha

ou como naquele ponto não teve escolha
como o corpo conta a verdade em sua corrida de células

Boa parte de nosso amor tomou a forma
de muda lealdade

nunca falamos da sua morte no seu leito de morte

mas daqui em diante
quero mais luto enlouquecido, mais uivo, mais lamento

Permanecemos mudas e desleais
porque tínhamos medo

Eu teria tocado com meus dedos
onde seus seios estiveram
mas nunca fizemos esse tipo de coisa

1974-1977  Adrienne Rich
tradução de Augusto Meneghin e Sarah Valle