terça-feira, 22 de julho de 2014

Peço que me tragam

peço que me tragam
de volta a manhã
                         pois não
                         a vejo atrás das árvores
         e há fumaça
        na silhueta do cavalo

tantas memórias
datilografadas em pólvora
:
o vagão transporta
brinquedos de madeira
e sob os holofotes
dizem-se crianças.

como haverá
novamente uma árvore
       neste século, nesta
   rua
     se para os cata-ventos
reservamos um incêndio?

ruínas na terra santa
e antes o peito
encerrado 
de nossas convicções.

tragam-me de volta,
por favor,
um lugar para todos eles
que não sei o nome,
que não sei para onde vão.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Poema Sonoro

Hoje realizei uma parceria com o poeta Pedro Spigolon. Gravamos no Studio Grama, em Araras, um poema na voz do poeta com atmosfera musical de minha autoria. Confira no link abaixo o poema sonoro e escrito.

https://soundcloud.com/augusto-meneghin/poema-de-pedro-spigolon



recentemente afiei minha língua
na ponta de uma estrela
havia muito medo na saliva
e pensei que disto poderia livrar-me
lambendo essa fria luz.
recentemente fiz minha língua
um astro repleto de espinhos
sei que queria dizer ternura
mas só consegui falar agudo e frio.
refugiei-me do tumulto
na gruta da boca
acabei me confundindo
com as pensas estalactites
isso fez o abrigo
se passar por perigo
e senti a discórdia entre os dentes
me amassando como um teto baixo
queria dormir a paz
de quem se vai sem pedir perdão
o sono das estrelas
que se esqueceram da crueldade
mas meu perdão era cruel
como quem o pede
sem se arrepender.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Aldebarã


xxxRubi aceso sobre a divina fronte,
Aldebarã,
lumieira de mistério,
pérola de luz em sangue,
- quantos dias de Deus tu viste a terra,
um grão de pó,
rolar pelos espaços?
Viste brotar o Sol recém-nascido?
Viste-o acaso, qual diamante em fogo,
soltar-se do anel
que foi esse nosso coro de planetas
que giram hoje à sua volta,
ao abrigo do seu lume,
como brincam à vista de sua mãe,
suspensos de seus olhos,
confiados, os filhos?
És um dos olhos do Senhor que vela,
sempre acordado,
um olho a esquadrinhar as trevas
e a contar os mundos
do seu rebanho?
Falta-lhe acaso algum?
Ou algum lhe nasceu?
E para além de tudo o que se vê,
- que há do outro lado do espaço?
Para além do infinito,
diz, Aldeberã, que fica?
Onde acabam os mundos?
Todos vão em silêncio, solitários,
sem nunca se juntar;
todos se olham através do céu
e continuam sempre,
cada qual solitário em seu carreiro?
Não anseias, diz-me tu, unir-te a Sírio
e beijá-lo na fronte?
Um dia o Senhor
juntará num redil todas
as estrelas celestes?
Não fará delas todas
uma rosa de luz para o seu peito?
Que impossíveis amores
guarda o abismo?
Que mensagens de anelos seculares
transmitem os cometas?
Sois irmandade? Dói-te,
diz-me tu, a dor de Sírio,
Aldebarã?
Caminhais todas para um ponto único?
Ouves o Sol?
Ouves a mim?
Sabes que respiro e sofro nesta terra,
- grão de poeira -
rubi aceso sobre a divina fronte,
Aldebarã?
Se é tua alma que irradia com teu lume,
- o que irradia é amor?
Tua vida é segredo?
Ou nada queres dizer diante
do tenebroso Deus?
És um adorno e nada mais, que nela
se suspendeu para seu recreio?
........................................................
xxxSempre sozinha, perdida no infinito,
Aldebarã!
Perdida na infinita multidão
de solitários...
sem um irmão?
Ou sois uma família que se entende,
que se fita nos olhos,
que comunica o que sente e o que pensa
no infinito?
Une-vos acaso algum comum desejo?
Como tua luz chega, doce estrela,
doce e terrível,
- não nos chega acaso o sopro de tua alma,
Aldebarã?
Aldebarã, Aldebarã ardente,
o peito do espaço,
- não é regaço vivo,
regaço palpitante de mistério?
xxxTu segues as Plêiades,
há seculos de séculos,
Aldebarã,
e sempre à mesma distância te mantêm!
Estes mesmos brilhantes hieróglifos
que no céu traçou a mão de Deus
viu o primeiro homem,
e sempre indecifráveis
giram em volta da nossa pobre Terra.
Sua fixidez, que ultrapassa
o mudar dos séculos agoureiro,
é nosso laço de quietude, cadeia
da permanência augusta;
símbolo do anseio permanente
da sede de verdade não saciado
são para nós essas figuras que não mudam,
Aldebarã.
De vós, celestes hieróglifos,
em que o enigma universal se encerra,
pendem por séculos
os sonhos seculares;
de vós provêm as lendas
brumosas, estelares,
que como ocultas fibras
ao homem das cavernas nos enlaçam.
Ele, na noite de tormenta e fome,
viu-te, rubi impassível,
Aldebarã,
e louco, uma vez, de olhos em sangue,
viu-te ao morrer,
sangrento olho do céu,
olho de Deus,
Aldebarã!
E quando tu morreres?
Quando finalmente a tua luz
se derreter nas trevas?
Quando, fria e escura
- o espaço sudário-,
gires sem fim e para fim nenhum?
Este tecto nocturno da Terra,
bordado com enigmas,
este pano estrelado
da nossa pobre tenda de campanha,
- é o mesmo que um dia viu o pó
que hoje pisam nossos pés
quando em humanas frontes
forjou olhos viventes?
Hoje ergue-se em remoinho
quando o vento o açoita
e antes foi peitos respirando vida!
E esse pó de estrelas,
esse areal redondo,
sobre o qual rola o mar das trevas,
- não foi também um corpo soberano,
não foi sede de uma alma,
Aldebarã?
Não o é ainda hoje, Aldebarã ardente?
Não és acaso, estrela misteriosa,
gota de sangue vivo
nas veias de Deus?
Não é seu corpo o espaço tenebroso?
E quando tu morreres,
- esse corpo que fará de ti?
Para onde Deus, para defender sua saúde,
te haverá de segregar, estrela morta,
Aldebarã?
Para que tremendo monturo de mundos?
.............................................................
xxxSobre o meu túmulo, Aldebarã, derrama
tua luz de sangue,
e se um dia voltarmos à Terra,
que eu te encontre imóvel, silenciando
a palavra do mistério eterno!
Se a verdade Suprema nos cingisse,
ao nada todos nós regressaríamos!
De eternidade é penhor o teu silêncio,
Aldebarã!

(Miguel de Unamuno, tradução de José Bento)

sábado, 5 de julho de 2014

A Segunda Vinda


Girando e girando a voltas crescentes
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.
É certo, está perto a revelação;
É certo, está perto a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Mal digo as palavras
E a imagem vasta do Spiritus Mundi
Turva-me a vista: no pó de um deserto
Um corpo de leão de crânio humano,
O olhar vazio e duro como o sol,
Move as pernas pesadas, e ao redor
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Volta a escuridão; mas eu sei agora
Que o sono pétreo desses vinte séculos
Deu em sonho mau no embalo de um berço.
Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?
(W.B.Yeats, tradução de Paulo Vizioli)


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Meu pensamento é um rio subterrâneo

Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo

De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mágoa
Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...

E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói‑me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...

E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?

Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...

(Fernando Pessoa)

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Poemas de Saigyō (séc.XII)



     Por que eu, que rompi
Tão completamente com este mundo,
     Acho ainda no meu corpo
A pulsação dum coração
Outrora de matizes florais tingida?



Amor tal como folhas caídas:
     Cada manhã o vento
Amaina e as ciciantes folhas
     Quedam em silêncio: Seria isto
A paixão dos noturnos namorados
Agora de partida após conversados?



     Quão mísero mundo
Este seria se este desdenhado,
     Veloz passante mundo
Não tivesse lugar para refúgio -
Isto é, não contivesse montanhas.


(tradução de Nissim Cohen)






quinta-feira, 12 de junho de 2014

Um poema de e.e. cummings


psiu)
ninguéns
estão vindo
do crepúscul
o e juntos estão
parando junto so
b uma árvore particular
todos respirando a escuridão jun
tos lentamente todos juntos

magicamente sorrindo e se

não tomarmos muito cuidado a
credite eu e você vagaremos
em cada um desses ilimitáv
eis a falar muito suave
mente com todos
juntos milag
rosas cria
turas do
(psiu

(tradução de Augusto de Campos)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Romance


I

Não se pode ser sério aos dezessete anos.
 – Um dia, dá-se adeus ao chope e à limonada,
À bulha dos cafés de lustres suburbanos!
 – E vai-se sob a verde aléia de uma estrada.

O quente odor da tília a tarde quente invade! 
Tão puro e doce é o ar, que a pálpebra arqueja;
De vozes prenhe, o vento – ao pé vê-se a cidade, –
Tem perfumes de vinha e cheiros de cerveja...    

II

Eis que então se percebe uma pequena tira
De azul escuro, em meio à romaria franca,
Picotada por uma estrela má, que expira
Em doce tremular, muito pequena e branca.

Noite estival! A idade! – A gente se inebria;
A seiva sobe em nós como um champanhe inquieto...
Divaga-se; e no lábio um beijo se anuncia,
A palpitar ali como um pequeno inseto...

III

O peito Robinsona em clima de romance,
Quando – na palidez da luz de um poste – vai 
Passando uma gentil mocinha, mas no alcance
Do colarinho duro e assustador do pai...

E como está te achando imensamente alheio,
Fazendo estrepitar as pequenas botinas,
Ela se vira, alerta, em rápido meneio...
 – Em teus lábios então soluçam cavatinas...

IV

Estás apaixonado. Até o mês de agosto.
Fisgado. – Ela com teus sonetos se diverte.
Os amigos se vão: és tipo de mau gosto.
 – Um dia a amada enfim se digna de escrever-te!...

Nesse dia, ah, meu Deus... – Com teus ares ufanos,
Regressas aos cafés, ao chope, à limonada...
 – Não se pode ser sério aos dezessete anos
Quando a tília perfuma as aléias da estrada.

(Arthur Rimbaud)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Beatriz de Dia


 chantar m'er de so qu'eu no volria é a única peça trovadoresca de autoria feminina que chegou até nós intacta (ao menos até agora). Sua autora é Beatriz de Dia ou Condessa de Dia, nascida no condado de Provença por volta do final do séc. XII e meados do séc.XIII. 
Realizei uma tradução da música a partir da tradução inglesa, já que a original encontra-se na língua occitana. Também disponibilizo aqui duas versões da música.


A chantar m’er de so qu’ieu non volria

A chantar m’er de so qu’ieu non volria
Tant me rancur de lui cui sui amia,
Car ieu l’am mais que nuilla ren que sia;
Vas lui no.m val merces ni cortesia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens,
C’atressi.m sui enganad’e trah¨ıa
Com degr’esser, s’ieu fos desavinens.

Meravill me com vostre cors s’orguoilla
Amics, vas me, per qu’ai razon qu’ieu.m duoilla
Non es ges dreitz c’autr’amors vos mi tuoilla
Per nuilla ren qe.us diga ni acuoilla;
E membre vos cals fo.l comenssamens
De nostr’amor! ja Dompnedieus non vuoilla
Qu’en ma colpa sia.l departimens.

Valer mi deu mos pretz e mos paratges
E ma beltatz e plus mos fis coratges,
Per qu’ieu vos man lai on es vostr’estatges
Esta chansson que me sia messatges:
Ieu vuoill saber, lo mieus bels amics gens,
Per que vos m’etz tant fers ni tant salvatges,
Non sai, si s’es orguoills o maltalens.

Mas aitan plus voill qe.us diga.l messatges
Qu’en trop d’orguoill ant gran dan maintas gens.



Eu sou obrigada a cantar aquilo que não quero

Eu sou obrigada a cantar aquilo que não quero, 
Então, estou amargurada com aquele cujo amor sou eu, 
Porque eu o amo mais do que qualquer coisa; 
Com ele misericórdia e cortesania são inúteis 
Não é a minha beleza, nem o meu mérito, nem o meu bom senso, 
Porque estou enganada e traída
Exatamente como deveria estar, se eu fosse desagradável. 

Estou impressionada com a forma como você se torna arrogante, 
Amigo, para mim, e também não tenho motivos para lamentar;
É quase certo que outro amor leva você de mim
Por conta de qualquer coisa dita ou concedida a você. 
E lembre-se de como era no começo
Do nosso amor! Que o Senhor Deus nunca deseje
Que a minha culpa seja a causa da separação. 

Meu valor e minha nobreza, 
Minha beleza e meu coração fiel devem me ajudar; 
É por isso que eu envio lá para sua morada
Esta canção, que pode ser o meu mensageiro 
Eu quero saber, meu amigo bom e nobre, 
Por que você é tão brutal e rude comigo; 
Eu não sei se é arrogância ou má vontade. 
Mas eu particularmente quero que o mensageiro lhe diga
Que muitas pessoas são prejudicadas pelo excesso de orgulho.

















E a versão que se encontra na Wikipedia:

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Três poemas de Radovan Ivsic

  
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxI                       

xxxxFoi antes da aurora que ele se levantou, deslizou-se
para perto da desconhecida e a despertou com um longo
beijo na boca.
xxxx- Escuta a qual ponto te quero, murmurou a ela.
Tua mão adormecida, eu desejo que, diante de mim,
tua mão hipnagógica te acaricie. Faze-o, para ti.
xxxxQuando todos os galhos noturnos trazidos por
seus dedos entraram sob a penugem selvagem como
vagas longas longas com o rumor dos pequenos
trenós na atrelagem alada das suindaras ofuscadas e
quando, após o surdo relâmpago, ela lhe mostrou o
rosto onde desciam, a passos de lince, lágrimas
infinitas, ele beijou a seda das luvas e desmanchou o
choro, de outro modo, no silêncio estrelado, no
estrondo de trovão, nos gritos arrancados do mais
profundo dos turbilhões.
xxxx- Não, não o tive nem o quis para mim, con-
firmou ele. É apenas o teu prazer que eu buscava na
aurora, pela primeira vez.

(do livro O Poço na Torre)



Litografia que Joan Miró fez em 1969 para a edição original do livro Mavena



ASAS NEGRAS

Quando o século
mente e mente
as aparições tomam
o lugar dos sonhos.


PARTIR?

Abertos a todos os ventos
os sonhos se demoram transparentes
tão leves tão gelados
que uma atrelagem é supérflua.


(do livro Retomadas de Vista)




quarta-feira, 4 de junho de 2014

Trechos de naufrágio


Um ato espetacular poderia ser o retorno
se, ao invés de souvenirs e incensos,
fosse teu rosto a nascer horizontes. Voz
habitando fantasmagórico casco de navio onde
um piano incendiado de doze teclas
assistiu ao fim com uma banda de saxofones. Coral
de trevas, pérola em estandarte quebrado e
a fúria, sempre mítica, do sacrificado no salão de festas.

Teu braço, imagina, sobre a nuvem feita
no tempo vago das tecelãs. O cisne de
porcelana, o trem de madeira - apagados
pela água de mil anos. Agora, vê, isto
é naufrágio de partes íntimas, colocação da
supremacia do tempo sobre a velocidade, o espaço,
a lembrança. Queria o corpo esquecer
sua traqueia de caldas sonoras? A valise

de núpcias: nunca mais. O bolso
de fogos coloridos: quem o viu?
Na tarde, uma vez, em que o
 “iu” “iu” dos pássaros caía sobre os túmulos
e, solenes, as romãs feriam o chão,
uma harpa contraditória era o jogo dos meninos.
Caminhões levavam plantas até o extremo
oriente de seus cabelos e, suavemente,

passamos ao status de estrangeiros.
Este é o fim, Perséfone, dos ponteiros de areia,
da ruga abastada desta vida onde éramos
teatros de chá lançados sem órbita.
Mas isto não é a Grécia, não somos Par-
mênides e o cão Diógenes quando retumba
a primavera e vistoriamos a estação vindoura.
Qualquer lugar seria a vida, o flanco

supremo da deserção, o pó, trincheira
amontoando dobraduras do coração.
Entretanto, é longe. O azul, distante.
Mineração evasiva, olhos que não se cruzam
e um dominó da linguagem que, ao vento,
entreabre tipografias. Quem sabe se,
por trás dos telefones, há ainda
o mesmo céu de Vincent e Renoir,

mais suspeito e enganoso,
doutrinado por bombas, fósforos
de alumínio a cruzar o tedioso medieval,
quando, em uma colher de pálpebras,
revela a ti mesmo a natureza do sono humano.
Agora, vê, isto é naufrágio,
quando partir as delícias da terra
em uma casa despovoada.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Até quando


O amanhã fará estourar tempestades de eclipses da lua
ou jorrar relâmpagos de sódio
quando o verás como um vagão de gado
semelhante a um amontoado de polícias na neve
que queria comê-los
ou quando o chamarás como um fantasma
que te pela ovos duros como a Lista Telefônica
tão magra hoje em dia que parece um guarda-pó
que perdeu seus óculos como um mar que vê afundar
   sua ilha
O amanhã não é um ramo de azevinho numa cápsula
  de obus
O amanhã não é um almoço a preço fixo como um
  gafanhoto
nem um sorriso de zeladora que inveja a sorte dos
  arengues no seu caixote
nem um desfile de escoteiros conduzidos por uma
  bênção numa cueca
nem a erva que brota entre as pedras do calçamento
  envergonhadas de não estarem penduradas
  no pescoço de um afogado
mas se quiseres o amanhã é brilho entre os trilhos
  dos bondes
a noite
enquanto as manadas de escaravelhos vermelhos com
  olhos de siamês
murmuram a meus ouvidos como um pato exausto
Rosa foge Rosa foge
O amanhã jorrará do deserto como um oásis flutuante
onde as pedras gritam aos berros
Eu te vi bandeira de carvão com estrelas azuis

(Benjamin Péret)


Andre Masson, desenho automático

domingo, 1 de junho de 2014

Meus adeuses, dei-os todos


Meus adeuses, dei-os todos. Mil partidas
me formaram desde a infância, devagar.
Mas volto outra vez e recomeço a lida:
a volta franca liberta meu olhar.

O que me resta é cuidar de o expandir,
e minha alegria sempre contumaz:
a de ter amado coisas quase iguais
a essas ausências que fazem agir.

(Rainer Maria Rilke)



Paula_Modersohn-Becker, Tumbas Pantanosas


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Entre muitos


Sou quem sou.
Inconcebível acaso
como todos os acasos.

Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar.

Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual.
Alguém de formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.

Alguém muito menos feliz
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.

Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.

Uma palha esmagada
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um sujeito com uma negra sina
que para os outros se ilumina.

E se eu despertasse nas pessoas o medo,
ou só aversão,
ou só pena?

Se eu não tivesse nascido
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?

A sorte até agora
me tem sido favorável.

Poderia não me ser dada
a lembrança de bons momentos.

Poderia me ser tirada
a propensão para comparações.

Poderia ser eu mesmo - mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

(Wislawa Szymborska)

Mas viveremos


Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.

Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.

Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e de esperança.

Já não distinguirei na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.

Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.

Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.
Voltava a noite, mais noite, mais completa.

E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas,
oceanos e oceanos e oceanos.

Mas um livro, por baixo do colchão,
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando
e teu retrato, amigo, consolava.

Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.

No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no sítio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,

teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.

Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.

Mas, viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.

Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.

Pouco importa que dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se façam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.

E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.

Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
essa rosa, esse canto, essa palavra.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Impossível


Sozinho não posso
carregar um forte-piano
(menos ainda
uma caixa-forte).
E, se uma caixa-forte não posso
nem um forte-piano,
de que jeito poderia
carregar meu coração, se o retomasse?
« Se não há bolso que suporte,
os muito ricos
guardam num cofre »,
os banqueiros resolvem o impasse.
Em ti o amor
- como uma riqueza blindada pelo ferro -
encerro
e sigo meus passos, como o rei mais rico.
Se preciso for
retiro um sorriso,
meio-sorriso
ou menos que isso
e, destilando como os outros
numa meia-noite de farra
corrosivo, escarro
quinze rublos de troco lírico.

(Vladimir Maiakóvski, tradução de André Nogueira)

Para ler galáxias

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do
comêço afunilao comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aque meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
comêço em eco no soco de um comêço em eco no oco eco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha de fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buco do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala

(Haroldo de Campos, Galáxias, 1984)


e aqui podemos ouvir o próprio autor recitando esta proesia que inaugura a obra:


 





domingo, 25 de maio de 2014

Un étranger avec, sous le bras, un livre de petit format


III

[...]

xxxx- Não há história da palavras mas, inalterável, uma his-
tória do silêncio. A palavra repete-a constantemente para nós.

xxxx- Do silêncio só conhecemos o que a palavra nos pode 
dizer. Quer queiras quer não, só a palavra confirmamos.


xxxx- Quando lês, em voz alta, um texto, não é a tua voz 
que ouves? A história do silêncio é um texto. A escuta do silên-
cio, um livro.
xxxxO instante diz. A duração é dita. A duração é ausência, 
e o instante, um vestígio relevado de uma ausência revelada
a si mesma.
xxxxA palavra não será mais, talvez, que uma sucessão de pas-
sos sonoros nos passos destronados de um universo que desa-
pareceu sob as areias.
xxxxAranha-diadema.
xxxxA agonia da palavra é muda. Oh, viscoso infinito enre-
dado da morte! Por essa palavra-mosca somos responsáveis.

xxxxAo princípio era o livro no seu branco princípio.



(Edmond Jabès, tradução de Pedro Tamen)

sábado, 24 de maio de 2014

Luva que desce a noite

silenciosamente como um uivo.
Ventoinha de cornos que agita a ramagem e os pássaros
e acaba na vedação do parque formada por panóplias
que olhas
fosforescente na noite intensíssima
meu gomo de laranja que bebo sangrento
e antiquíssimo.
Dois cordões brancos pendem para os desejos mais
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxvisionários
para a narrativa       para o sonho       para o trampolim
para a lua em festa
para o perfil do teu barco
para a caneta de ouro que é essa tua mão de dez aparos
astro meu        pingo de leite        persistente névoa.
Numeras as portas
com folhas de calendário        com raiva numeras o infinito
e dormes como dormes
nas escadas de mármore
nas infindáveis alamedas que traçaste
ao escreveres aquilo que me escreves
deitados lado a lado no infinito de um leito.
Sempre as tuas cartas como chuva torrencial
negra como os teus olhos e como eles cavernas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxperseverantes
onde grita ao fundo
a percepção de todos os naufrágios.
Bebes pelos olhos os cardumes de peixes
e a prata rebrilha-te inteiro:
são faróis brancos cegos e quadrúpedes
como o grito de uma ave na floresta que vimos reclinada
adormecida num sofá vermelho entre dois cavaleiros à
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxdesfilada.

Meu amor
o cristal de tudo o que não é de cristal aperta o meu peito
e constrói sobre ele castelos e longas muralhas
que descem descalças figuras vindas de muito longe
biblicamente lentas
quando chove ainda sobre os rios
e o ruído da sede das serranias rebenta os tímpanos
não deixa ouvir o que nos querem dizem os pontos cardeais.
Com amoras e anêmonas sobre os joelhos
não te perderás.
O sentido de orientação desta tinta gerada
põe máquinas subterrâneas nos cabelos
o que é devido ao cheiro forte e másculo recolhido no
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxprecioso
frasco de cristal e ouro;
novos mundos transparentes se formam
o oblíquas nuvens desfloradas pela força das raízes.
Recordo ainda as queridas chaminés das fábricas
translúcidas (e lucidíssimas)
ligadas por fios em círculos lançados por aviões
antiqüíssimos
e lembro ainda os embrulhos misteriosos
maiores que a soma de todos os planetas.
Estalactites encontrarás à noite sob as pontes e à esquerda
sob o capacho
no esconderijo ardente das palavras.
Depois
todos se encaminham rapidamente para a cidade.
Há coisas assim enormes e transparentes? Há sim.
Os teus beijos guardam consigo véus descabidos
em que se aninham corpos construídos de folhas mortas
e onde por analogia os cisnes
guardam avaramente nos bolsos o azul da água
e a medida exata dos teus cabelos
em que se enleiam relógios amargos.
Oh meu amor
maiores que essas máquinas de espalhar trovoadas
e pelas costas pentear árvores seculares com unhas de anão
os teus dedos os teus dedos os teus dedos
que tocam nos corpos solitários no outro extremo do
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxmundo
voltam como teclas de marfim ligados por fios de ouro
por fios elétricos compassivos
por sólidos cabos de amarras navios
de prender mastros,
de assobiar tempestades,
de raptar ideais.
Cada som é um mundo que fica a pairar sem asas.
E é em Espanha que podemos ver os cisnes eletrocutados
e as boinas a cair na arena como navios;
a porta que bate e fecha a superfície do lago não está
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxesquecida.
Qual é a hora da visita?

Mas há dias em que
só para menores a porta se abre lenta como um cancro
tentadora nos seus infinitos azuis violáceos.
Ponteiros tentaculares coçam agora as costas do telefone adormecido
e no terraço entre dois vasos de delicada faiança oriental
a espada de Casanova trespassa um soluço esmagados
como um teatro
desmoronado em 1755.
Mas há dias em que
tudo cabe afinal neste ocaso sem limite

Oh meu amor
corpo de búzio onde escuto o mar distante
as quentes calças azuis frementes
e o veludo negro que recobre tudo.
Agora fecha os olhos
e olha.

(Cruzeiro Sexas)


                                                     

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Caminho do Campo


(Der Feldweg – 1949)
In Gesamtausgabe Nº 013 – Aus der Erfahrung des Denken
(Sobre a Experiência do Pensar)
Trad. Ermildo Stein 
MARTIN HEIDEGGER
 
            Do portão do Jardim do Castelo estende-se até as planícies úmidas do Ehnried. Sobre o muro, as velhas tílias do jardim acompanha-o com o olhar, estende ele, pelo tempo da Páscoa,seu claro traço entre as sementeiras que nascem e as Campinas que despertam ou desapareça, pelo Natal, atrás da primeira colina, sob turbilhões de neve. Próximo da cruz do campo, dobra em buscas da floresta. Saúda, de passagem, à sua orla, o alto carvalho que abriga um banco esquadrado na madeira crua.
            Nele repousava, às vezes, este ou aquele texto dos grandes pensadores, que um jovem desajeitado procurava decifrar. Quando os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do campo oferecia boa ajuda: silenciosamente acompanhava nossos passos pela sinuosa vereda, através da amplidão da terra agreste.
            O pensamento sempre de novo às voltas com os mesmos textos ou com seus próprios problemas, retorna a vereda que o caminho estira através da campina. Sob os pés, ele permanece tão próximo daquele que pensa quanto do camponês que de madrugada caminha para a ceifa.
            Mais freqüentemente com o correr dos anos, o carvalho à beira do caminho leva a lembrança aos jogos da infância e as primeiras escolhas. Quando, às vezes, no coração da floresta tombavam um carvalho sob os golpes do machado,meu pai logo partia, atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas, à procura do estéreo de madeira destinado à sua oficina. Ela lá que trabalhava solícito e concentrado, nos intervalos de sua ocupação junto ao relógio do campanário e aos sinos, que, um e outro, mantém relação própria com o tempo e a temporalidade.
            Os meninos, porém, recortavam seus navios na casca do carvalho. Equipados com bancos para o remador e o timão, flutuavam os barcos no Mettenbach ou no lago da escola. Nesses folguedos, as grandes travessias atingiam facilmente seu termo e facilmente recobravam o porto. A dimensão de seu sonho era protegida por um halo, apenas discernível, pairando sobre todas as coisas. O espaço aberto era-lhe limitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo se passava com se sua discreta solicitude velasse sobre todos os seres. Essas travessias de brinquedos nada podiam saber das expedições em cujo curso todas as margens ficam para trás. Entrementes, a consistência e o odor do carvalho começavam a falar, já perceptivelmente da lentidão e da constância  com que a árvore cresce. O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente ambas as coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz.
            Isto o carvalho repete sempre ao caminho do campo, que diante dele corre seguro de seu destino. O caminho recolhe aquilo que tem seu ser em torno dele; e dá a cada um dos que o percorrem aquilo que é seu. Os mesmos campos, as mesmas encostas  da colina escoltam o caminho em cada estação, próximos dele com proximidade sempre nova. Quer a cordilheira dos Alpes acima das florestas se esbata no crepúsculo da tarde, quer de onde o caminho ondeia entre os outeiros, a cotovia de manhã se lança ao céu de verão, quer o vento leste sopre a tempestade do lado em que jaz a aldeia natal da mãe, que o lenhador carregue, ao cair da noite, seu feixe de gravetos para a lareira, quer o carro da colheita se arraste em direção ao celeiro, oscilando pelos sulcos do caminho, quer apanhem as crianças as primeiras primaveras na ourela do prado, quer passeia a neblina ao longo do dia sua sombria massa sobre o vale, sempre e de todos os lados fala, em torno do caminho do campo, o apelo do mesmo.
           O simples guarda o enigma do que permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mas carece de longo tempo para crescer e amadurecer. O dom que desperta está escondido na inaparência do que é sempre o mesmo. As coisas que amadurecem e se demoram em torno do caminho, em sua amplitude e em sua plenitude dão o mundo. Como diz o velho mestre Eckhart, junto a quem aprendemos a ler e a viver, é naquilo que sua linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus.
            Todavia, o apelo pelo caminho do campo fala apenas enquanto homens nascidos no ar que o cercam forem capazes de ouvi-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o homem através de planejamento procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seus ouvidos retumba o fragor das máquinas que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa e se torna errante. Aos desatentos o Simples parece uniforme. A uniformidade entedia. Os entediados só vêem monotonia a seu redor. O simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa esgotou-se.
            O número dos que ainda conhecem o Simples como um bem que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente Esses poucos , porém, serão, em toda parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças gigantescas da energia atômica, que o cálculo e a sutileza do homem engendraram para com ele entravar sua própria obra.
            O apelo do caminho do Campo acorda um sentido que ama a liberdade e, no lugar oportuno, suplantará as aflições numa ultima serenidade. Esta se opõe a desordem de só trabalhar, uma desordem que, buscada por si mesma, favorece o nada negativo.
No ar do caminho do Campo, variável com as estações, nasce e se cria uma jovialidade sábia, cujo semblante muitas vezes parece carregado. Este saber jovial é a “Serenidade”[1][1]. Quem não a possui não poderá adquiri-la e quem a possui é do caminho do Campo que a tem, em sua via se encontram a tormenta do inverno e o dia da colheita, em sua via se cruzam a mobilização estimulante da primavera e o fenecer tranqüilo do outono...
 A Serenidade sábia é uma abertura para o eterno. Sua porta gira nos gonzos que um hábil ferreiro forjou, um dia, com os enigmas da existência.
Das baixas planícies do Ehnried o caminho retorna ao jardim do Castelo. Galgando a última colina sua estreita faixa transpõe uma depressão e chega as muralhas da cidade. Uma vaga luminosidade desce das estrelas e se espraia sobre as coisas. Atrás do castelo alteia-se a torre da igreja de São Martinho. Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas, desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos de menino se aqueciam rudimente, treme sobre o martelo das horas, cuja silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.
Após a última batida, o silêncio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O apelo do caminho do campo é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou fala Deus?
Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renuncia não tira. A renúncia dá. Dá a força inesgotável do Simples. O apelo faz-nos de novo habitar uma distante origem, onde a terra natal nos é devolvida.





[1][1] Existe uma grande problemática na tradução deste termo em alemão, o texto original diz o seguinte: In der jahrenzeitlich luft dês Feldweges gedeiht die wissende Heiterkeit daren Meine oft schwermutig scheint. Dieses heiterm Wisser, ist das “Kuinzige”. Niemand gewinnt es, der es nicht hat...Die wissende Heiterkeit ist ein Tor zum Ewigen. Seine Tür dreht sich den Angeln, die aus den Ratseln dês Daseins bei einem kundigen Schmied einst geschmiedet worden. O dialeto “Kuinzige” é próprio da Suábia do Sul, região onde fica a cidade de Messkich , cidade natal de Heidegger, corresponde etimologicamente à “keinnutzig” bom para nada’. A Profª Maria do Carmo Tavares de Miranda, traduziu este termo como “Sapiente Serenidade”, algo que se aproxima do termo em volga “alegria que se sabe”. E para finalizar dizendo que: designa hoje, um estado de serenidade, livre e alegre, que gosta de dissimular, marcada por uma ironia afetuosa e um toque de melancolia sorridente, sabedoria que só se mostra veladamente. Heidegger quer aqui, neste momento, um retorno ao termo serenidade, um grande retorno a serenidade.