sexta-feira, 25 de abril de 2014

Um poema de Joseph Brodsky

Vida Nova

Imagina que a guerra acabou, que em todo o lado reina a paz.
Que ainda te podes mirar o gelo. Que é a pêga ou o melro,
e não um Junkers, que nos ramos faz "craz, craz, craz".
Que da janela não vês as ruínas duma cidade, mas o seu barroco,
pinheiros, palmeiras, magnólias, a hera tenaz, relva,
loureiros. Que o ferro forjado por cuja renda a lua ansiava
acabou por sucumbir ao assalto da mimosa e ao pujante rebentar
da piteira. Que a vida tem de voltar a começar.

As pessoas saem de casa onde cadeiras como a letra "b"
ou o número "6" às vezes as salvam de desmaiar.
Ninguém precisa delas, a não ser elas mes
mas, as pedras da calçada e a espécie - para se multiplicar.
É a força das estátuas. Dos nichos vazios, mais propriamente.
Isto é, já que a santidade rareia, quedemo-nos por um seu sinônimo.
Imagina que tudo isto é verdade. Imagina que falas de ti
enquanto falas delas, de qualquer coisa supérflua, anônima.

A vida recomeça exatamente assim: como um quadro mostrando
a erupção dum vulcão, um barco apanhado na tormenta.
Com a sensação afim de que só tu estás atento
à catástrofe. Com a sensação de que, a qualquer momento,
vais desviar o olhar, rever o divã, as flores em bouquet
na jarra de porcelana amarela ao lado do café
frio. As suas cores garridas, as suas bocas ressequidas,
prenunciam todavia também a catástrofe.

As coisas são vulneráveis. Mas esquecemos célere
o pensamento numa coisa, infelizmente. São servas
do pensamento as coisas. Daí suas formas - cortes do cérebro -
o seu apego ao lugar, o seu lado Penélope, aquela
tendência para o futuro. O galo canta ao nascer-do-sol.
Na nova vida, no hotel, ao saíres do banho envolto na toalha,
mais pareces o pastor do rebanho dos móveis
de mogno e ferro forjado de quatro patas.

Imagina que a epopéia acaba em idílio. Que as palavras são
o contrário das línguas de fogo, do monólogo irado
que devorou os melhores do que tu como ramo seco;
que de ti as chamas tiraram pouco que preste,
pouco calor. Por isso sobreviveste.
Por isso não sofres sobremaneira com a indiferença
das Pomonas, dos Vertumnos, das Ceres que povoam
o lugar. Por isso nos teus lábios há essa cantiga de pastores.

Quanto tempo pode alguém justificar-se? Por mais
que escondas o ás, na mesa batem valetes dum naipe incolor.
Imagina que quanto mais
sincera é a voz, menor nela são as lágrimas, o amor, a paixão, o terror.
Imagina que de vez em quando apanhas na rádio o velho hino.
Imagina que, também aqui, no poema, cada caracter é seguido
de outros que involuntariamente formam ora "betsy", ora "ibrahim",
levando a pena para lá fora da fronteira do alfabeto e do sentido.

Um fim de tarde na nova vida. Cigarras com o seu tse-tse-tse; e
uma avenida clássica onde falta um tanque
ou um nevoeiro malsão para lhe ofuscar o fundo; e
as nuas tábuas dum soalho que nunca sentiram um tango.
Na nova vida não se diz ao momento "Detém-te!"
pois, se ele se detém, cessa e desfaz-se em fumo.
E, para cúmulo, as linhas do teu rosto não têm
brilho que dê para escrevinhar "Olá" no lado mate e colar o selo.

As paredes brancas do quarto tornam-se mais brancas
devido ao olhar de aviso que lhes lançam,
mais depressa habituado, o olhar, não aos largos campos,
mas à ausência, no espectro, dos pigmentos que se anulam.
A uma coisa pode-se perdoar muita coisa, especial
mente onde afusela, onde chega ao fim. A arte, em última
análise, não é mais do que a atração por esses espaços
desérticos, pelas suas paisagens desprovidas de intenção última.

Na nova vida, um céu com nuvens é melhor que o Sol. A chuva,
ao repetir-se no futuro, permite-te conheceres-te melhor.
Por outro lado, o inesperado comboio que já não esperavas
na plataforma chega sem atrasos maior.
A vela, ao longe, dita a sentença ao horizonte.
O olhar prefere o sabão que escorrega à esponja ou à espuma.
E se alguém te perguntar "Quem és tu?", responde,
"Eu? Ninguém", como uma vez Ulisses a Polifemo.

(tradução de Carlos Leite)