quarta-feira, 28 de maio de 2014

Entre muitos


Sou quem sou.
Inconcebível acaso
como todos os acasos.

Fossem outros
os meus antepassados
e de outro ninho
eu voaria
ou de sob outro tronco
coberta de escamas eu rastejaria.

No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra.
O traje da aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um cai como uma luva
e é usado sem reclamar
até se gastar.

Eu também não tive escolha
mas não me queixo.
Poderia ter sido alguém
muito menos individual.
Alguém de formigueiro, do cardume, zunindo no enxame,
uma fatia de paisagem fustigada pelo vento.

Alguém muito menos feliz
criado para uso da pele,
para a mesa da festa,
algo que nada debaixo da lente.

Uma árvore presa à terra
da qual se aproxima o fogo.

Uma palha esmagada
pela marcha de inconcebíveis eventos.

Um sujeito com uma negra sina
que para os outros se ilumina.

E se eu despertasse nas pessoas o medo,
ou só aversão,
ou só pena?

Se eu não tivesse nascido
na tribo adequada
e diante de mim se fechassem os caminhos?

A sorte até agora
me tem sido favorável.

Poderia não me ser dada
a lembrança de bons momentos.

Poderia me ser tirada
a propensão para comparações.

Poderia ser eu mesmo - mas sem o espanto,
e isso significaria
alguém totalmente diferente.

(Wislawa Szymborska)

Mas viveremos


Já não há mãos dadas no mundo.
Elas agora viajarão sozinhas.
Sem o fogo dos velhos contatos,
que ardia por dentro e dava coragem.

Desfeito o abraço que me permitia,
homem da roça, percorrer a estepe,
sentir o negro, dormir a teu lado,
irmão chinês, mexicano ou báltico.

Já não olharei sobre o oceano
para decifrar no céu noturno
uma estrela vermelha, pura e trágica,
e seus raios de glória e de esperança.

Já não distinguirei na voz do vento
(Trabalhadores, uni-vos...) a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor.

Há mais de vinte anos caminhávamos
sem nos vermos, de longe, disfarçados
mas a um grito, no escuro, respondia
outro grito, outro homem, outra certeza.

Muitas vezes julgamos ver a aurora
e sua rosa de fogo à nossa frente.
Era apenas, na noite, uma fogueira.
Voltava a noite, mais noite, mais completa.

E que dificuldade de falar!
Nem palavras nem códigos: apenas
montanhas e montanhas e montanhas,
oceanos e oceanos e oceanos.

Mas um livro, por baixo do colchão,
era súbito um beijo, uma carícia,
uma paz sobre o corpo se alastrando
e teu retrato, amigo, consolava.

Pois às vezes nem isso. Nada tínhamos
a não ser estas chagas pelas pernas,
este frio, esta ilha, este presídio,
este insulto, este cuspo, esta confiança.

No mar estava escrita uma cidade,
no campo ela crescia, na lagoa,
no sítio negro, em tudo onde pisasse
alguém, se desenhava tua imagem,

teu brilho, tuas pontas, teu império
e teu sangue e teu bafo e tua pálpebra,
estrela: cada um te possuía.
Era inútil queimar-te, cintilavas.

Hoje quedamos sós. Em toda parte,
somos muitos e sós. Eu, como os outros.
Já não sei vossos nomes nem vos olho
na boca, onde a palavra se calou.

Voltamos a viver na solidão,
temos de agir na linha do gasômetro,
do bar, da nossa rua: prisioneiros
de uma cidade estreita e sem ventanas.

Mas, viveremos. A dor foi esquecida
nos combates de rua, entre destroços.
Toda melancolia dissipou-se
em sol, em sangue, em vozes de protesto.

Já não cultivamos amargura
nem sabemos sofrer. Já dominamos
essa matéria escura, já nos vemos
em plena força de homens libertados.

Pouco importa que dedos se desliguem
e não se escrevam cartas nem se façam
sinais da praia ao rubro couraçado.
Ele chegará, ele viaja o mundo.

E ganhará enfim todos os portos,
avião sem bombas entre Natal e China,
petróleo, flores, crianças estudando,
beijo de moça, trigo e sol nascendo.

Ele caminhará nas avenidas,
entrará nas casas, abolirá os mortos.
Ele viaja sempre, esse navio,
essa rosa, esse canto, essa palavra.

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Impossível


Sozinho não posso
carregar um forte-piano
(menos ainda
uma caixa-forte).
E, se uma caixa-forte não posso
nem um forte-piano,
de que jeito poderia
carregar meu coração, se o retomasse?
« Se não há bolso que suporte,
os muito ricos
guardam num cofre »,
os banqueiros resolvem o impasse.
Em ti o amor
- como uma riqueza blindada pelo ferro -
encerro
e sigo meus passos, como o rei mais rico.
Se preciso for
retiro um sorriso,
meio-sorriso
ou menos que isso
e, destilando como os outros
numa meia-noite de farra
corrosivo, escarro
quinze rublos de troco lírico.

(Vladimir Maiakóvski, tradução de André Nogueira)

Para ler galáxias

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja seja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina se afina o fim no funil do
comêço afunilao comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fim e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aque meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
comêço em eco no soco de um comêço em eco no oco eco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha de fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buco do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravalha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favila de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala

(Haroldo de Campos, Galáxias, 1984)


e aqui podemos ouvir o próprio autor recitando esta proesia que inaugura a obra:


 





domingo, 25 de maio de 2014

Un étranger avec, sous le bras, un livre de petit format


III

[...]

xxxx- Não há história da palavras mas, inalterável, uma his-
tória do silêncio. A palavra repete-a constantemente para nós.

xxxx- Do silêncio só conhecemos o que a palavra nos pode 
dizer. Quer queiras quer não, só a palavra confirmamos.


xxxx- Quando lês, em voz alta, um texto, não é a tua voz 
que ouves? A história do silêncio é um texto. A escuta do silên-
cio, um livro.
xxxxO instante diz. A duração é dita. A duração é ausência, 
e o instante, um vestígio relevado de uma ausência revelada
a si mesma.
xxxxA palavra não será mais, talvez, que uma sucessão de pas-
sos sonoros nos passos destronados de um universo que desa-
pareceu sob as areias.
xxxxAranha-diadema.
xxxxA agonia da palavra é muda. Oh, viscoso infinito enre-
dado da morte! Por essa palavra-mosca somos responsáveis.

xxxxAo princípio era o livro no seu branco princípio.



(Edmond Jabès, tradução de Pedro Tamen)

sábado, 24 de maio de 2014

Luva que desce a noite

silenciosamente como um uivo.
Ventoinha de cornos que agita a ramagem e os pássaros
e acaba na vedação do parque formada por panóplias
que olhas
fosforescente na noite intensíssima
meu gomo de laranja que bebo sangrento
e antiquíssimo.
Dois cordões brancos pendem para os desejos mais
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxvisionários
para a narrativa       para o sonho       para o trampolim
para a lua em festa
para o perfil do teu barco
para a caneta de ouro que é essa tua mão de dez aparos
astro meu        pingo de leite        persistente névoa.
Numeras as portas
com folhas de calendário        com raiva numeras o infinito
e dormes como dormes
nas escadas de mármore
nas infindáveis alamedas que traçaste
ao escreveres aquilo que me escreves
deitados lado a lado no infinito de um leito.
Sempre as tuas cartas como chuva torrencial
negra como os teus olhos e como eles cavernas
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxperseverantes
onde grita ao fundo
a percepção de todos os naufrágios.
Bebes pelos olhos os cardumes de peixes
e a prata rebrilha-te inteiro:
são faróis brancos cegos e quadrúpedes
como o grito de uma ave na floresta que vimos reclinada
adormecida num sofá vermelho entre dois cavaleiros à
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxdesfilada.

Meu amor
o cristal de tudo o que não é de cristal aperta o meu peito
e constrói sobre ele castelos e longas muralhas
que descem descalças figuras vindas de muito longe
biblicamente lentas
quando chove ainda sobre os rios
e o ruído da sede das serranias rebenta os tímpanos
não deixa ouvir o que nos querem dizem os pontos cardeais.
Com amoras e anêmonas sobre os joelhos
não te perderás.
O sentido de orientação desta tinta gerada
põe máquinas subterrâneas nos cabelos
o que é devido ao cheiro forte e másculo recolhido no
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxprecioso
frasco de cristal e ouro;
novos mundos transparentes se formam
o oblíquas nuvens desfloradas pela força das raízes.
Recordo ainda as queridas chaminés das fábricas
translúcidas (e lucidíssimas)
ligadas por fios em círculos lançados por aviões
antiqüíssimos
e lembro ainda os embrulhos misteriosos
maiores que a soma de todos os planetas.
Estalactites encontrarás à noite sob as pontes e à esquerda
sob o capacho
no esconderijo ardente das palavras.
Depois
todos se encaminham rapidamente para a cidade.
Há coisas assim enormes e transparentes? Há sim.
Os teus beijos guardam consigo véus descabidos
em que se aninham corpos construídos de folhas mortas
e onde por analogia os cisnes
guardam avaramente nos bolsos o azul da água
e a medida exata dos teus cabelos
em que se enleiam relógios amargos.
Oh meu amor
maiores que essas máquinas de espalhar trovoadas
e pelas costas pentear árvores seculares com unhas de anão
os teus dedos os teus dedos os teus dedos
que tocam nos corpos solitários no outro extremo do
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxmundo
voltam como teclas de marfim ligados por fios de ouro
por fios elétricos compassivos
por sólidos cabos de amarras navios
de prender mastros,
de assobiar tempestades,
de raptar ideais.
Cada som é um mundo que fica a pairar sem asas.
E é em Espanha que podemos ver os cisnes eletrocutados
e as boinas a cair na arena como navios;
a porta que bate e fecha a superfície do lago não está
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxesquecida.
Qual é a hora da visita?

Mas há dias em que
só para menores a porta se abre lenta como um cancro
tentadora nos seus infinitos azuis violáceos.
Ponteiros tentaculares coçam agora as costas do telefone adormecido
e no terraço entre dois vasos de delicada faiança oriental
a espada de Casanova trespassa um soluço esmagados
como um teatro
desmoronado em 1755.
Mas há dias em que
tudo cabe afinal neste ocaso sem limite

Oh meu amor
corpo de búzio onde escuto o mar distante
as quentes calças azuis frementes
e o veludo negro que recobre tudo.
Agora fecha os olhos
e olha.

(Cruzeiro Sexas)


                                                     

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O Caminho do Campo


(Der Feldweg – 1949)
In Gesamtausgabe Nº 013 – Aus der Erfahrung des Denken
(Sobre a Experiência do Pensar)
Trad. Ermildo Stein 
MARTIN HEIDEGGER
 
            Do portão do Jardim do Castelo estende-se até as planícies úmidas do Ehnried. Sobre o muro, as velhas tílias do jardim acompanha-o com o olhar, estende ele, pelo tempo da Páscoa,seu claro traço entre as sementeiras que nascem e as Campinas que despertam ou desapareça, pelo Natal, atrás da primeira colina, sob turbilhões de neve. Próximo da cruz do campo, dobra em buscas da floresta. Saúda, de passagem, à sua orla, o alto carvalho que abriga um banco esquadrado na madeira crua.
            Nele repousava, às vezes, este ou aquele texto dos grandes pensadores, que um jovem desajeitado procurava decifrar. Quando os enigmas se acotovelavam e nenhuma saída se anunciava, o caminho do campo oferecia boa ajuda: silenciosamente acompanhava nossos passos pela sinuosa vereda, através da amplidão da terra agreste.
            O pensamento sempre de novo às voltas com os mesmos textos ou com seus próprios problemas, retorna a vereda que o caminho estira através da campina. Sob os pés, ele permanece tão próximo daquele que pensa quanto do camponês que de madrugada caminha para a ceifa.
            Mais freqüentemente com o correr dos anos, o carvalho à beira do caminho leva a lembrança aos jogos da infância e as primeiras escolhas. Quando, às vezes, no coração da floresta tombavam um carvalho sob os golpes do machado,meu pai logo partia, atravessando a mataria e as clareiras ensolaradas, à procura do estéreo de madeira destinado à sua oficina. Ela lá que trabalhava solícito e concentrado, nos intervalos de sua ocupação junto ao relógio do campanário e aos sinos, que, um e outro, mantém relação própria com o tempo e a temporalidade.
            Os meninos, porém, recortavam seus navios na casca do carvalho. Equipados com bancos para o remador e o timão, flutuavam os barcos no Mettenbach ou no lago da escola. Nesses folguedos, as grandes travessias atingiam facilmente seu termo e facilmente recobravam o porto. A dimensão de seu sonho era protegida por um halo, apenas discernível, pairando sobre todas as coisas. O espaço aberto era-lhe limitado pelos olhos e pelas mãos da mãe. Tudo se passava com se sua discreta solicitude velasse sobre todos os seres. Essas travessias de brinquedos nada podiam saber das expedições em cujo curso todas as margens ficam para trás. Entrementes, a consistência e o odor do carvalho começavam a falar, já perceptivelmente da lentidão e da constância  com que a árvore cresce. O carvalho mesmo assegurava que só semelhante crescer significa: abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente ambas as coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e abrigado pela proteção da terra que oculta e produz.
            Isto o carvalho repete sempre ao caminho do campo, que diante dele corre seguro de seu destino. O caminho recolhe aquilo que tem seu ser em torno dele; e dá a cada um dos que o percorrem aquilo que é seu. Os mesmos campos, as mesmas encostas  da colina escoltam o caminho em cada estação, próximos dele com proximidade sempre nova. Quer a cordilheira dos Alpes acima das florestas se esbata no crepúsculo da tarde, quer de onde o caminho ondeia entre os outeiros, a cotovia de manhã se lança ao céu de verão, quer o vento leste sopre a tempestade do lado em que jaz a aldeia natal da mãe, que o lenhador carregue, ao cair da noite, seu feixe de gravetos para a lareira, quer o carro da colheita se arraste em direção ao celeiro, oscilando pelos sulcos do caminho, quer apanhem as crianças as primeiras primaveras na ourela do prado, quer passeia a neblina ao longo do dia sua sombria massa sobre o vale, sempre e de todos os lados fala, em torno do caminho do campo, o apelo do mesmo.
           O simples guarda o enigma do que permanece e do que é grande. Visita os homens inesperadamente, mas carece de longo tempo para crescer e amadurecer. O dom que desperta está escondido na inaparência do que é sempre o mesmo. As coisas que amadurecem e se demoram em torno do caminho, em sua amplitude e em sua plenitude dão o mundo. Como diz o velho mestre Eckhart, junto a quem aprendemos a ler e a viver, é naquilo que sua linguagem não diz que Deus é verdadeiramente Deus.
            Todavia, o apelo pelo caminho do campo fala apenas enquanto homens nascidos no ar que o cercam forem capazes de ouvi-lo. São servos de sua origem, não escravos do artifício. Em vão o homem através de planejamento procura instaurar uma ordenação no globo terrestre, se não for disponível ao apelo do caminho do campo. O perigo ameaça, que o homem de hoje não possa ouvir sua linguagem. Em seus ouvidos retumba o fragor das máquinas que chega a tomar pela voz de Deus. Assim o homem se dispersa e se torna errante. Aos desatentos o Simples parece uniforme. A uniformidade entedia. Os entediados só vêem monotonia a seu redor. O simples desvaneceu-se. Sua força silenciosa esgotou-se.
            O número dos que ainda conhecem o Simples como um bem que conquistaram, diminui, não há dúvida, rapidamente Esses poucos , porém, serão, em toda parte, os que permanecem. Graças ao tranqüilo poder do caminho do campo, poderão sobreviver um dia às forças gigantescas da energia atômica, que o cálculo e a sutileza do homem engendraram para com ele entravar sua própria obra.
            O apelo do caminho do Campo acorda um sentido que ama a liberdade e, no lugar oportuno, suplantará as aflições numa ultima serenidade. Esta se opõe a desordem de só trabalhar, uma desordem que, buscada por si mesma, favorece o nada negativo.
No ar do caminho do Campo, variável com as estações, nasce e se cria uma jovialidade sábia, cujo semblante muitas vezes parece carregado. Este saber jovial é a “Serenidade”[1][1]. Quem não a possui não poderá adquiri-la e quem a possui é do caminho do Campo que a tem, em sua via se encontram a tormenta do inverno e o dia da colheita, em sua via se cruzam a mobilização estimulante da primavera e o fenecer tranqüilo do outono...
 A Serenidade sábia é uma abertura para o eterno. Sua porta gira nos gonzos que um hábil ferreiro forjou, um dia, com os enigmas da existência.
Das baixas planícies do Ehnried o caminho retorna ao jardim do Castelo. Galgando a última colina sua estreita faixa transpõe uma depressão e chega as muralhas da cidade. Uma vaga luminosidade desce das estrelas e se espraia sobre as coisas. Atrás do castelo alteia-se a torre da igreja de São Martinho. Vagarosamente, quase hesitantes, soam as badaladas das onze horas, desfazendo-se no ar noturno. O velho sino, em suas cordas outrora mãos de menino se aqueciam rudimente, treme sobre o martelo das horas, cuja silhueta jocosa e sombria ninguém esquece.
Após a última batida, o silêncio ainda mais se aprofunda. Estende-se até aqueles que foram sacrificados prematuramente em duas guerras mundiais. O Simples torna-se ainda mais simples. O que é sempre o Mesmo desenraiza e liberta. O apelo do caminho do campo é agora bem claro. É a alma que fala? Fala o mundo? Ou fala Deus?
Tudo fala da renúncia que conduz ao Mesmo. A renuncia não tira. A renúncia dá. Dá a força inesgotável do Simples. O apelo faz-nos de novo habitar uma distante origem, onde a terra natal nos é devolvida.





[1][1] Existe uma grande problemática na tradução deste termo em alemão, o texto original diz o seguinte: In der jahrenzeitlich luft dês Feldweges gedeiht die wissende Heiterkeit daren Meine oft schwermutig scheint. Dieses heiterm Wisser, ist das “Kuinzige”. Niemand gewinnt es, der es nicht hat...Die wissende Heiterkeit ist ein Tor zum Ewigen. Seine Tür dreht sich den Angeln, die aus den Ratseln dês Daseins bei einem kundigen Schmied einst geschmiedet worden. O dialeto “Kuinzige” é próprio da Suábia do Sul, região onde fica a cidade de Messkich , cidade natal de Heidegger, corresponde etimologicamente à “keinnutzig” bom para nada’. A Profª Maria do Carmo Tavares de Miranda, traduziu este termo como “Sapiente Serenidade”, algo que se aproxima do termo em volga “alegria que se sabe”. E para finalizar dizendo que: designa hoje, um estado de serenidade, livre e alegre, que gosta de dissimular, marcada por uma ironia afetuosa e um toque de melancolia sorridente, sabedoria que só se mostra veladamente. Heidegger quer aqui, neste momento, um retorno ao termo serenidade, um grande retorno a serenidade.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

As palavras interditas

x
Os navios existem, e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios. 
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios. 

Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece. 
É preciso partir, é preciso ficar. 

Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E entram pela janela 
as primeiras luzes das colinas. 

As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas; 
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas suas curvas claras. 

Dói-me esta água, este ar que se respira, 
dói-me esta solidão de pedra escura, 
estas mãos nocturnas onde aperto 
os meus dias quebrados na cintura. 

E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens nuas, desoladas, 
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 

(Eugénio de Andrade)

terça-feira, 20 de maio de 2014

Je Vous Salue Sarajevo
















De certa forma, medo é a filha de Deus, redimida na noite de sexta-feira santa. Ela não é bela, é zombada, amaldiçoada e renegada por todos. Mas não entenda mal, ela cuida de toda agonia mortal, ela intercede pela humanidade.


Pois há uma regra e uma exceção. Cultura é a regra. E arte a exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, TV, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita: Flaubert, Dostoyevski. É composta: Gershwin, Mozart. É pintada: Cézanne, Vermeer. É filmada: Antonioni, Vigo. Ou é vivida, e se torna a arte de viver: Srebenica, Mostar, Sarajevo. A regra quer a morte da exceção. Então a regra para a Europa Cultural é organizar a morte da arte de viver, que ainda floresce.

Quando for a hora de fechar o livro, Eu não terei arrependimentos. Eu vi tantos viverem tão mal, e tantos morrerem tão bem.

(Jean-Luc Godard)

Da Terra Santa de Alda Merini

40

O meu primeiro transfúgio de mãe
aconteceu numa noite de verão
quando um louco pegou em mim
e me deitou na relva
e me fez conceber um filho.
Ó nunca a lua gritou tanto
contra as estrelas ofendidas,
e nunca gritaram tanto as minhas entranhas,
nem o Senhor voltou tanto a cabeça para trás
como naquele exacto momento
vendo a minha virgindade de mãe
ofendida num ludíbrio.
O meu primeiro transfúgio de mulher
aconteceu num canto escuro
sob o calor impetuoso do sexo,
mas nasceu uma menina gentil
com um sorriso tão doce
e tudo se perdoou.
Eu é que nunca irei perdoar
e aquele menino foi-me retirado do ventre
e entregue a mãos mais "santas",
fui eu a ultrajada,
eu que subi aos céus
por ter concebido uma génese.

(tradução de Clara Rowland)