segunda-feira, 23 de junho de 2014

Poemas de Saigyō (séc.XII)



     Por que eu, que rompi
Tão completamente com este mundo,
     Acho ainda no meu corpo
A pulsação dum coração
Outrora de matizes florais tingida?



Amor tal como folhas caídas:
     Cada manhã o vento
Amaina e as ciciantes folhas
     Quedam em silêncio: Seria isto
A paixão dos noturnos namorados
Agora de partida após conversados?



     Quão mísero mundo
Este seria se este desdenhado,
     Veloz passante mundo
Não tivesse lugar para refúgio -
Isto é, não contivesse montanhas.


(tradução de Nissim Cohen)






quinta-feira, 12 de junho de 2014

Um poema de e.e. cummings


psiu)
ninguéns
estão vindo
do crepúscul
o e juntos estão
parando junto so
b uma árvore particular
todos respirando a escuridão jun
tos lentamente todos juntos

magicamente sorrindo e se

não tomarmos muito cuidado a
credite eu e você vagaremos
em cada um desses ilimitáv
eis a falar muito suave
mente com todos
juntos milag
rosas cria
turas do
(psiu

(tradução de Augusto de Campos)

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Romance


I

Não se pode ser sério aos dezessete anos.
 – Um dia, dá-se adeus ao chope e à limonada,
À bulha dos cafés de lustres suburbanos!
 – E vai-se sob a verde aléia de uma estrada.

O quente odor da tília a tarde quente invade! 
Tão puro e doce é o ar, que a pálpebra arqueja;
De vozes prenhe, o vento – ao pé vê-se a cidade, –
Tem perfumes de vinha e cheiros de cerveja...    

II

Eis que então se percebe uma pequena tira
De azul escuro, em meio à romaria franca,
Picotada por uma estrela má, que expira
Em doce tremular, muito pequena e branca.

Noite estival! A idade! – A gente se inebria;
A seiva sobe em nós como um champanhe inquieto...
Divaga-se; e no lábio um beijo se anuncia,
A palpitar ali como um pequeno inseto...

III

O peito Robinsona em clima de romance,
Quando – na palidez da luz de um poste – vai 
Passando uma gentil mocinha, mas no alcance
Do colarinho duro e assustador do pai...

E como está te achando imensamente alheio,
Fazendo estrepitar as pequenas botinas,
Ela se vira, alerta, em rápido meneio...
 – Em teus lábios então soluçam cavatinas...

IV

Estás apaixonado. Até o mês de agosto.
Fisgado. – Ela com teus sonetos se diverte.
Os amigos se vão: és tipo de mau gosto.
 – Um dia a amada enfim se digna de escrever-te!...

Nesse dia, ah, meu Deus... – Com teus ares ufanos,
Regressas aos cafés, ao chope, à limonada...
 – Não se pode ser sério aos dezessete anos
Quando a tília perfuma as aléias da estrada.

(Arthur Rimbaud)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Beatriz de Dia


 chantar m'er de so qu'eu no volria é a única peça trovadoresca de autoria feminina que chegou até nós intacta (ao menos até agora). Sua autora é Beatriz de Dia ou Condessa de Dia, nascida no condado de Provença por volta do final do séc. XII e meados do séc.XIII. 
Realizei uma tradução da música a partir da tradução inglesa, já que a original encontra-se na língua occitana. Também disponibilizo aqui duas versões da música.


A chantar m’er de so qu’ieu non volria

A chantar m’er de so qu’ieu non volria
Tant me rancur de lui cui sui amia,
Car ieu l’am mais que nuilla ren que sia;
Vas lui no.m val merces ni cortesia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens,
C’atressi.m sui enganad’e trah¨ıa
Com degr’esser, s’ieu fos desavinens.

Meravill me com vostre cors s’orguoilla
Amics, vas me, per qu’ai razon qu’ieu.m duoilla
Non es ges dreitz c’autr’amors vos mi tuoilla
Per nuilla ren qe.us diga ni acuoilla;
E membre vos cals fo.l comenssamens
De nostr’amor! ja Dompnedieus non vuoilla
Qu’en ma colpa sia.l departimens.

Valer mi deu mos pretz e mos paratges
E ma beltatz e plus mos fis coratges,
Per qu’ieu vos man lai on es vostr’estatges
Esta chansson que me sia messatges:
Ieu vuoill saber, lo mieus bels amics gens,
Per que vos m’etz tant fers ni tant salvatges,
Non sai, si s’es orguoills o maltalens.

Mas aitan plus voill qe.us diga.l messatges
Qu’en trop d’orguoill ant gran dan maintas gens.



Eu sou obrigada a cantar aquilo que não quero

Eu sou obrigada a cantar aquilo que não quero, 
Então, estou amargurada com aquele cujo amor sou eu, 
Porque eu o amo mais do que qualquer coisa; 
Com ele misericórdia e cortesania são inúteis 
Não é a minha beleza, nem o meu mérito, nem o meu bom senso, 
Porque estou enganada e traída
Exatamente como deveria estar, se eu fosse desagradável. 

Estou impressionada com a forma como você se torna arrogante, 
Amigo, para mim, e também não tenho motivos para lamentar;
É quase certo que outro amor leva você de mim
Por conta de qualquer coisa dita ou concedida a você. 
E lembre-se de como era no começo
Do nosso amor! Que o Senhor Deus nunca deseje
Que a minha culpa seja a causa da separação. 

Meu valor e minha nobreza, 
Minha beleza e meu coração fiel devem me ajudar; 
É por isso que eu envio lá para sua morada
Esta canção, que pode ser o meu mensageiro 
Eu quero saber, meu amigo bom e nobre, 
Por que você é tão brutal e rude comigo; 
Eu não sei se é arrogância ou má vontade. 
Mas eu particularmente quero que o mensageiro lhe diga
Que muitas pessoas são prejudicadas pelo excesso de orgulho.

















E a versão que se encontra na Wikipedia:

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Três poemas de Radovan Ivsic

  
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxI                       

xxxxFoi antes da aurora que ele se levantou, deslizou-se
para perto da desconhecida e a despertou com um longo
beijo na boca.
xxxx- Escuta a qual ponto te quero, murmurou a ela.
Tua mão adormecida, eu desejo que, diante de mim,
tua mão hipnagógica te acaricie. Faze-o, para ti.
xxxxQuando todos os galhos noturnos trazidos por
seus dedos entraram sob a penugem selvagem como
vagas longas longas com o rumor dos pequenos
trenós na atrelagem alada das suindaras ofuscadas e
quando, após o surdo relâmpago, ela lhe mostrou o
rosto onde desciam, a passos de lince, lágrimas
infinitas, ele beijou a seda das luvas e desmanchou o
choro, de outro modo, no silêncio estrelado, no
estrondo de trovão, nos gritos arrancados do mais
profundo dos turbilhões.
xxxx- Não, não o tive nem o quis para mim, con-
firmou ele. É apenas o teu prazer que eu buscava na
aurora, pela primeira vez.

(do livro O Poço na Torre)



Litografia que Joan Miró fez em 1969 para a edição original do livro Mavena



ASAS NEGRAS

Quando o século
mente e mente
as aparições tomam
o lugar dos sonhos.


PARTIR?

Abertos a todos os ventos
os sonhos se demoram transparentes
tão leves tão gelados
que uma atrelagem é supérflua.


(do livro Retomadas de Vista)




quarta-feira, 4 de junho de 2014

Trechos de naufrágio


Um ato espetacular poderia ser o retorno
se, ao invés de souvenirs e incensos,
fosse teu rosto a nascer horizontes. Voz
habitando fantasmagórico casco de navio onde
um piano incendiado de doze teclas
assistiu ao fim com uma banda de saxofones. Coral
de trevas, pérola em estandarte quebrado e
a fúria, sempre mítica, do sacrificado no salão de festas.

Teu braço, imagina, sobre a nuvem feita
no tempo vago das tecelãs. O cisne de
porcelana, o trem de madeira - apagados
pela água de mil anos. Agora, vê, isto
é naufrágio de partes íntimas, colocação da
supremacia do tempo sobre a velocidade, o espaço,
a lembrança. Queria o corpo esquecer
sua traqueia de caldas sonoras? A valise

de núpcias: nunca mais. O bolso
de fogos coloridos: quem o viu?
Na tarde, uma vez, em que o
 “iu” “iu” dos pássaros caía sobre os túmulos
e, solenes, as romãs feriam o chão,
uma harpa contraditória era o jogo dos meninos.
Caminhões levavam plantas até o extremo
oriente de seus cabelos e, suavemente,

passamos ao status de estrangeiros.
Este é o fim, Perséfone, dos ponteiros de areia,
da ruga abastada desta vida onde éramos
teatros de chá lançados sem órbita.
Mas isto não é a Grécia, não somos Par-
mênides e o cão Diógenes quando retumba
a primavera e vistoriamos a estação vindoura.
Qualquer lugar seria a vida, o flanco

supremo da deserção, o pó, trincheira
amontoando dobraduras do coração.
Entretanto, é longe. O azul, distante.
Mineração evasiva, olhos que não se cruzam
e um dominó da linguagem que, ao vento,
entreabre tipografias. Quem sabe se,
por trás dos telefones, há ainda
o mesmo céu de Vincent e Renoir,

mais suspeito e enganoso,
doutrinado por bombas, fósforos
de alumínio a cruzar o tedioso medieval,
quando, em uma colher de pálpebras,
revela a ti mesmo a natureza do sono humano.
Agora, vê, isto é naufrágio,
quando partir as delícias da terra
em uma casa despovoada.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Até quando


O amanhã fará estourar tempestades de eclipses da lua
ou jorrar relâmpagos de sódio
quando o verás como um vagão de gado
semelhante a um amontoado de polícias na neve
que queria comê-los
ou quando o chamarás como um fantasma
que te pela ovos duros como a Lista Telefônica
tão magra hoje em dia que parece um guarda-pó
que perdeu seus óculos como um mar que vê afundar
   sua ilha
O amanhã não é um ramo de azevinho numa cápsula
  de obus
O amanhã não é um almoço a preço fixo como um
  gafanhoto
nem um sorriso de zeladora que inveja a sorte dos
  arengues no seu caixote
nem um desfile de escoteiros conduzidos por uma
  bênção numa cueca
nem a erva que brota entre as pedras do calçamento
  envergonhadas de não estarem penduradas
  no pescoço de um afogado
mas se quiseres o amanhã é brilho entre os trilhos
  dos bondes
a noite
enquanto as manadas de escaravelhos vermelhos com
  olhos de siamês
murmuram a meus ouvidos como um pato exausto
Rosa foge Rosa foge
O amanhã jorrará do deserto como um oásis flutuante
onde as pedras gritam aos berros
Eu te vi bandeira de carvão com estrelas azuis

(Benjamin Péret)


Andre Masson, desenho automático

domingo, 1 de junho de 2014

Meus adeuses, dei-os todos


Meus adeuses, dei-os todos. Mil partidas
me formaram desde a infância, devagar.
Mas volto outra vez e recomeço a lida:
a volta franca liberta meu olhar.

O que me resta é cuidar de o expandir,
e minha alegria sempre contumaz:
a de ter amado coisas quase iguais
a essas ausências que fazem agir.

(Rainer Maria Rilke)



Paula_Modersohn-Becker, Tumbas Pantanosas