terça-feira, 22 de julho de 2014

Peço que me tragam

peço que me tragam
de volta a manhã
                         pois não
                         a vejo atrás das árvores
         e há fumaça
        na silhueta do cavalo

tantas memórias
datilografadas em pólvora
:
o vagão transporta
brinquedos de madeira
e sob os holofotes
dizem-se crianças.

como haverá
novamente uma árvore
       neste século, nesta
   rua
     se para os cata-ventos
reservamos um incêndio?

ruínas na terra santa
e antes o peito
encerrado 
de nossas convicções.

tragam-me de volta,
por favor,
um lugar para todos eles
que não sei o nome,
que não sei para onde vão.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Poema Sonoro

Hoje realizei uma parceria com o poeta Pedro Spigolon. Gravamos no Studio Grama, em Araras, um poema na voz do poeta com atmosfera musical de minha autoria. Confira no link abaixo o poema sonoro e escrito.

https://soundcloud.com/augusto-meneghin/poema-de-pedro-spigolon



recentemente afiei minha língua
na ponta de uma estrela
havia muito medo na saliva
e pensei que disto poderia livrar-me
lambendo essa fria luz.
recentemente fiz minha língua
um astro repleto de espinhos
sei que queria dizer ternura
mas só consegui falar agudo e frio.
refugiei-me do tumulto
na gruta da boca
acabei me confundindo
com as pensas estalactites
isso fez o abrigo
se passar por perigo
e senti a discórdia entre os dentes
me amassando como um teto baixo
queria dormir a paz
de quem se vai sem pedir perdão
o sono das estrelas
que se esqueceram da crueldade
mas meu perdão era cruel
como quem o pede
sem se arrepender.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Aldebarã


xxxRubi aceso sobre a divina fronte,
Aldebarã,
lumieira de mistério,
pérola de luz em sangue,
- quantos dias de Deus tu viste a terra,
um grão de pó,
rolar pelos espaços?
Viste brotar o Sol recém-nascido?
Viste-o acaso, qual diamante em fogo,
soltar-se do anel
que foi esse nosso coro de planetas
que giram hoje à sua volta,
ao abrigo do seu lume,
como brincam à vista de sua mãe,
suspensos de seus olhos,
confiados, os filhos?
És um dos olhos do Senhor que vela,
sempre acordado,
um olho a esquadrinhar as trevas
e a contar os mundos
do seu rebanho?
Falta-lhe acaso algum?
Ou algum lhe nasceu?
E para além de tudo o que se vê,
- que há do outro lado do espaço?
Para além do infinito,
diz, Aldeberã, que fica?
Onde acabam os mundos?
Todos vão em silêncio, solitários,
sem nunca se juntar;
todos se olham através do céu
e continuam sempre,
cada qual solitário em seu carreiro?
Não anseias, diz-me tu, unir-te a Sírio
e beijá-lo na fronte?
Um dia o Senhor
juntará num redil todas
as estrelas celestes?
Não fará delas todas
uma rosa de luz para o seu peito?
Que impossíveis amores
guarda o abismo?
Que mensagens de anelos seculares
transmitem os cometas?
Sois irmandade? Dói-te,
diz-me tu, a dor de Sírio,
Aldebarã?
Caminhais todas para um ponto único?
Ouves o Sol?
Ouves a mim?
Sabes que respiro e sofro nesta terra,
- grão de poeira -
rubi aceso sobre a divina fronte,
Aldebarã?
Se é tua alma que irradia com teu lume,
- o que irradia é amor?
Tua vida é segredo?
Ou nada queres dizer diante
do tenebroso Deus?
És um adorno e nada mais, que nela
se suspendeu para seu recreio?
........................................................
xxxSempre sozinha, perdida no infinito,
Aldebarã!
Perdida na infinita multidão
de solitários...
sem um irmão?
Ou sois uma família que se entende,
que se fita nos olhos,
que comunica o que sente e o que pensa
no infinito?
Une-vos acaso algum comum desejo?
Como tua luz chega, doce estrela,
doce e terrível,
- não nos chega acaso o sopro de tua alma,
Aldebarã?
Aldebarã, Aldebarã ardente,
o peito do espaço,
- não é regaço vivo,
regaço palpitante de mistério?
xxxTu segues as Plêiades,
há seculos de séculos,
Aldebarã,
e sempre à mesma distância te mantêm!
Estes mesmos brilhantes hieróglifos
que no céu traçou a mão de Deus
viu o primeiro homem,
e sempre indecifráveis
giram em volta da nossa pobre Terra.
Sua fixidez, que ultrapassa
o mudar dos séculos agoureiro,
é nosso laço de quietude, cadeia
da permanência augusta;
símbolo do anseio permanente
da sede de verdade não saciado
são para nós essas figuras que não mudam,
Aldebarã.
De vós, celestes hieróglifos,
em que o enigma universal se encerra,
pendem por séculos
os sonhos seculares;
de vós provêm as lendas
brumosas, estelares,
que como ocultas fibras
ao homem das cavernas nos enlaçam.
Ele, na noite de tormenta e fome,
viu-te, rubi impassível,
Aldebarã,
e louco, uma vez, de olhos em sangue,
viu-te ao morrer,
sangrento olho do céu,
olho de Deus,
Aldebarã!
E quando tu morreres?
Quando finalmente a tua luz
se derreter nas trevas?
Quando, fria e escura
- o espaço sudário-,
gires sem fim e para fim nenhum?
Este tecto nocturno da Terra,
bordado com enigmas,
este pano estrelado
da nossa pobre tenda de campanha,
- é o mesmo que um dia viu o pó
que hoje pisam nossos pés
quando em humanas frontes
forjou olhos viventes?
Hoje ergue-se em remoinho
quando o vento o açoita
e antes foi peitos respirando vida!
E esse pó de estrelas,
esse areal redondo,
sobre o qual rola o mar das trevas,
- não foi também um corpo soberano,
não foi sede de uma alma,
Aldebarã?
Não o é ainda hoje, Aldebarã ardente?
Não és acaso, estrela misteriosa,
gota de sangue vivo
nas veias de Deus?
Não é seu corpo o espaço tenebroso?
E quando tu morreres,
- esse corpo que fará de ti?
Para onde Deus, para defender sua saúde,
te haverá de segregar, estrela morta,
Aldebarã?
Para que tremendo monturo de mundos?
.............................................................
xxxSobre o meu túmulo, Aldebarã, derrama
tua luz de sangue,
e se um dia voltarmos à Terra,
que eu te encontre imóvel, silenciando
a palavra do mistério eterno!
Se a verdade Suprema nos cingisse,
ao nada todos nós regressaríamos!
De eternidade é penhor o teu silêncio,
Aldebarã!

(Miguel de Unamuno, tradução de José Bento)

sábado, 5 de julho de 2014

A Segunda Vinda


Girando e girando a voltas crescentes
O falcão não escuta o falcoeiro.
Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.
É certo, está perto a revelação;
É certo, está perto a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Mal digo as palavras
E a imagem vasta do Spiritus Mundi
Turva-me a vista: no pó de um deserto
Um corpo de leão de crânio humano,
O olhar vazio e duro como o sol,
Move as pernas pesadas, e ao redor
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Volta a escuridão; mas eu sei agora
Que o sono pétreo desses vinte séculos
Deu em sonho mau no embalo de um berço.
Qual besta rude, vinda enfim sua hora,
Arrasta-se a Belém para nascer?
(W.B.Yeats, tradução de Paulo Vizioli)


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Meu pensamento é um rio subterrâneo

Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei... Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo

De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las..., misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados...

De vez em quando luze em minha mágoa
Como um farol num mar desconhecido
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água...

E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,

E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói‑me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.

Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstracto...

E p'ra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?

Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e actual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa...

(Fernando Pessoa)