terça-feira, 17 de março de 2015

Avalanche


“Do not dress in those rags for me,
I know you are not poor;
you don't love me quite so fiercely now
when you know that you are not sure,
it is your turn, beloved,
it is your flesh that I wear.”
                                 Leonard Cohen




subitamente pela encosta deslizando           o fruto de um trovão
círios de terra que afogam        verdes manhãs tomadas pelo sol
um naufrágio de folhas secas             tempo de tecidos crus que
voltam sua face para a montanha gritante
há dias por trás das quedas            poente mutilado pela forma
excessiva de um vento escuro
então você e eu          aparições              de uma natureza tardia
tremendo pela primeira vez        em uma centena de indecisões
trilhamos pela água um monólogo
                                                 :
os primeiros que aqui estiveram      soterrados vivos como nós
lançam seus dados                diretamente nas pupilas  
e agora se purificam         em rodas de acordeão
são silenciosas as vestes mumificadas      destes espantalhos
de cedro e carne        dessas sombras alfabetizadas         que
encontraram um destino de cal
abandono
não entremos pela esperança             em nau que desvanece
fúria e melodia     
um pássaro de violino                 que decresce nas rochas
e assalta nosso sonho ao entardecer
:
assim nós vimos e ouvimos        sobre uma revelação na areia
e corremos até          um banco da infância
para perder       
                   todas as expectativas


em agosto
tecem Hiroshimas
mas só os mortos podem enxergar

seria Judas?       Sulamita?
ígneo caduceu no rio é abandonado     hordas expiram

o último a chegar encontra
                   as vestes finais
em crucifixos      e danças     e alguém que beija o traído
consuma-se a indagação
  :
    Alguém?
   - clama a escuridão
E seu príncipe natimorto      submerso em mercúrio
recita aos pássaros
uma canção mistral

em agosto
tecem Hiroshimas
mas só os mortos podem enxergar

portanto agora
e não mais tarde
nesse exato instante      sem revogação

o dia inacabado     filho de sementes áridas
de imagens que vagueiam sem universo
a ampola de noites perpétuas       em universos sem sóis
o ábaco de dores      a filosofia no tabuleiro de go
todas as lágrimas que se elevaram aos deuses
os encontros     as calamidades     a paixão atrevida que
uma centena de vezes é o próprio despertar
as ruínas de imensos jardins   
o papel chinês afogado em brancura
tudo será
a palavra que sair de minha boca
e ela não retornará
vazia para mim