sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A terra

para Safiri

O flanco aberto, em seu momento de claridade, mostra aos olhos a terra nua. À nudez da terra respondem as habitações, as árvores e os animais. O círculo de luz solar determina um novo espaço: a cor da terra se diferencia assim em matizes incontáveis. Por isso, a nudez da terra tem a vestimenta de uma paleta impossível. Sua impossibilidade é, no entanto, o possível que pisamos, tocamos e vemos. Talvez aqui seja o momento apropriado para dizer: “A terra nos fará bem.”, e nela gostaríamos de viver colhendo os frutos das horas e vendo-nos unidos sem distinção.
Sobre a terra estamos e fazemos morada. Mas o sentido de morar, quando a terra é con-junta, não está na qualidade da habitação. Não é a madeira rústica, não é a pedra, não é o cimento ou o tijolo que definem o estabelecer-se. A propriedade não significa para a terra mais do que intromissão e, na terra, as mãos vazias valem mais que um grande edifício.
Na terra, o existir é de-morar-se(r).
São as sombras e as variações, o cantar desconhecido que de longe nos atinge, o cheiro úmido da apresentação das folhas e o clamor do antigo que infundem em nós a sensação de um pertencimento fugaz. Sabemos que o estar na terra é estar não apenas no solo, mas na solidão do um. A terra é una com o que dela nasce e ramificação é sua essência.
Não apenas nutriz, não apenas veículo ou meio: a terra floresce e fertiliza. Seu desdobramento é o mais sólido e atinge a espessura do céu. Sem a terra a ave é estrangeira e o silêncio se perde no inefável.
É na terra que o reflexo do mundo se torna opaco. Ela filtra e absorve todo o excesso de luz e oferta sua claridade de maneira renovada. Se não estamos plenamente cegos é porque a terra ainda nos acolhe em sua escuridão pacífica. A matiz da terra abrange, inclusive, a noite intensa.
Porque não podemos nos subtrair da terra é que ela tornou-se esquecida. O mais próximo de nós é sempre o que primeiro se torna impessoal. O esquecimento da terra é como uma lâmina que separa nosso caminhar de nossa trajetória. O que há em uma paisagem que não conseguimos recordar, que foi destituída da possibilidade de ser história? Até mesmo a ruína possui beleza quando a terra lhe recobre com o devir. Sob a terra os antepassados fazem coro. Sob ela o novo, vindo do mais longínquo e ancestral, atualiza o conhecido.
Quando a voz da terra é re-encontrada, o fluir se dignifica.
Com o esquecimento, fechamos a clareira.

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