terça-feira, 18 de julho de 2017

Fala AT AL-609

[pronunciada no dia 7 de julho de 2017 por ocasião da exposição Metaxy]

Bachelard nos diz que as forças imaginantes da nossa mente se desenvolvem em duas linhas bastante diferentes: a imaginação formal e a imaginação material. Isso significa que, enquanto uma força imaginante encontra seu impulso na novidade, com o variado e o acontecimento inesperado, a outra escava fundo o ser, quer encontrar no ser, ao mesmo tempo, o primitivo e o eterno. É dessa segunda força imaginante que penso se tratarem as pinturas aqui expostas.
Desse modo, concordo com o filósofo francês quando ele diz: “Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica” e “...a paisagem onírica não é um quadro que se povoa de impressões, é uma matéria que pulula”.
Nas obras que apresentei aqui, a presença das paisagens como um lugar onírico é evidenciada pela utilização das cores e pela escolha não realista da figuração. Suponho que meu modo de questionar a nossa concepção de realidade seja caracterizada não através da denúncia de uma pobreza da experiência ou da representação de um mundo falido em que os sujeitos habitam suas ilhas privadas, mas do oferecimento de exercícios pictóricos em que a matéria é dignificada e restituída ao seu papel no mundo coletivo.
Quero dizer com isso que a pintura, como eu a entendo, é uma forma de meditação [uma viagem ao extremo possível de cada um] e uma atitude ética frente ao tempo histórico em que nos encontramos. Não posso deixar de dizer aqui que, se “a pintura morreu”, como proclamam alguns, então o pintor ou pintora atual exercem o papel de médiuns ou intermediários desta arte morta e, como os xamãs, cabe a eles negociar o destino das almas no tempo presente.
Talvez, assim como a fotografia liberou a pintura de sua necessidade de representação do real, a morte da pintura poderá, enfim, liberar o aspecto mítico desta arte, antes encoberto pelas formalidades.
De qualquer modo, a via de acesso para que este potencial da pintura se manifeste é ainda a atitude mais simples e essencial: estar diante a tela e deixar que as imagens e a matéria pictórica encontrem o seu caminho. O conhecimento técnico e filosófico, assim como o conhecimento da história da arte são apenas utensílios que, se não bem utilizados, podem deformar a percepção sensível direta e a intuição do ato criativo. Por isso, a matéria, as cores, a superfície, a paisagem ao redor e o acontecimentos da vida são ainda os elementos fundamentais e imprescindíveis. Como disse Bachelard: “... o ser é antes de tudo um despertar, e ele desperta na consciência de uma impressão extraordinária”, ou seja, sem o cultivo de uma presença ativa para além do ordinário, nada seria capaz de despertar em nós uma obra de arte, já que isso seria atribuir ao mero aspecto técnico a condição do ato criador, o que equivaleria a circunscrevê-lo à pura dimensão do método.
Evidente que essa concepção de pintura é algo pessoal e que não tenho a pretensão de qualquer universalização, como se não existissem outras concepções que levassem, conseqüentemente, a outros lugares. Desse modo, exporei em primeira pessoa como realizo uma pintura, tentando ser o mais descritivo possível, sem deter-me em considerações teóricas.

Vejo primeiro uma tela em branco. Às vezes, o que vejo primeiro é uma imagem marcante, algo que se imprimiu em mim e que não pude esquecer. Utilizo-me do esquecimento como parâmetro para a intensidade da força imagética: uma imagem que perdura em mim considero digna de ser materializada. Mas de onde vêm essas imagens? De todos os lugares e de nenhum em específico. Pode ser um sonho, uma foto, a lembrança de um lugar que estive ou que eu desejaria estar, a visão de uma idéia ou apenas o fruto de um devaneio.
De qualquer modo, a tela em branco é a parte inicial e que chamo de espaço. O que vejo primeiro é, então, o espaço.
Trabalho portanto esse espaço com a matéria que a imagem pede. Alguns chamam isso de base ou fundo da tela, mas pessoalmente já considero isto parte da imagem que será realizada. Porém, como saber o que a imagem pede? Essa pergunta resume a necessidade de uma maturação da imagem, de uma convivência com ela até que sua natureza se desvele e se abra para a realização da pintura propriamente dita.
Faço então uma mistura de terebentina a óleo de linhaça e aplico cores diluídas, geralmente sem nenhum desenho prévio. Aplico também esta mistura pura para obter o efeito de escorrimento que traz um caráter de espontaneidade e invoca a força do acaso. Após isso, viro as telas contra a parede e deixo que elas permaneçam lá por vários dias, às vezes semanas. Esse ponto é importante porque alivia minha tentação pessoal de retocar e interferir quando estou diante a tela, além do fato de me colocar pessoalmente em uma temporalidade que considero propícia à pintura.
Depois que essas primeiras camadas estão secas, realizo desenhos que servirão como marcação, como limites não tão rígidos que me guiarão nas etapas seguintes. Nesse momento, as manchas e escorrimentos costumam alterar a imagem original, o que considero perfeitamente aceitável, já que busco que a matéria conduza a pintura e não apenas que me obedeça como um pintor que quisesse obter controle absoluto sobre o que faz.
O aspecto das manchas é tão importante para mim que, às vezes, crio primeiras camadas apenas com manchas, utilizando-me de grattages, frotagges e decalcomanias para, posteriormente, buscar visões nessas manchas e impressões.
Com os desenhos realizados, aplico camadas mais opacas, geralmente diluídas apenas em óleo de linhaça ou até mesmo as tintas puras. O branco é a última cor que aplico, pelo mesmo motivo que os iconógrafos: porque simbolicamente ele representa a pura luz.
Nunca sei exatamente quando uma pintura termina, mas acho que o ditado italiano me serve como indicação: “Uma pintura não se acaba, se abandona”.
Em algum momento eu a abandono, mas isso nunca é claro o suficiente.





















Um lugar memorável, óleo sobre tela, 2017.